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7 de nov de 2013

feminismo e relações internacionais

Não há, exatamente, uma teoria feminista das Relações Internacionais; o que há são várias concepções teóricas que chamam a atenção para diferenças sociais baseadas em gênero. Busca-se entender como o universo patriarcal constrói discursos e práticas violentas nas relações entre os Estados e dentro deles.

As perspectivas feministas enxergam a construção histórica das Teorias de Relações Internacionais como uma experiência masculinizada. As fronteiras do Estado, a globalização e a militarização são exemplos de estruturas patriarcais criadas pelo discurso dominante masculino, que é reproduzido e justificado pelas teorias. Dessa forma, expõe-se a exclusão das mulheres do discurso teórico das Relações Internacionais e a construção sexista e androcêntrica das Relações Internacionais.

Parêntese
O que foi dito até aqui serviria, acredito, para qualquer campo teórico-acadêmico. A construção histórica de algum deles inseriu a visão feminina? Ou melhor: inseriu a visão de alguém que não fosse homem, branco, livre? Por isso é importante que os excluídos conheçam sua própria história, para entender o seu presente. Especificamente relacionado a mulheres, escrevi recentemente sobre Grécia e Roma antigas, nossos berços do Ocidente.
Fecha parêntese

O debate sobre a segurança internacional é central nas Relações Internacionais. A perspectiva feminista de segurança questiona a visão tradicional voltada para a relação entre os Estados (e volta a atenção aos indivíduos que são vítimas da violência). O feminismo critica a ausência da ótica feminina dentro dos estudos de segurança internacional, traz a questão do gênero para as discussões e chama atenção para a ideologia patriarcal por trás da violência e dos discursos acadêmicos sobre o tema.

As diversas formas nas quais as mulheres são vítimas de violências internacionais são expostas. As violências podem ser diretas (como no caso de estupros), ou estruturais (quando as mulheres são vítimas da exploração econômica ou são impedidas de tomar decisões sobre si próprias, caso de países que obrigam o controle de natalidade e de países que impedem que elas abortem).

Susan Brownmiller, em Against our Will, chama a atenção para o uso do estupro como instrumento de violência internacional. A Convenção de Genebra reconhece o uso do estupro como arma de guerra. Na Bósnia, ele foi usado sistematicamente como parte da limpeza étnica, por exemplo. O estupro não é somente uma forma de violência de um grupo em relação a outro: é mais uma forma de reafirmação da dominância masculina, que objetifica a mulher e a transforma em pilhagem de guerra.

Além do estupro, também a questão da violência doméstica raramente é expressa em termos de segurança internacional. O avanço da defesa dos direitos humanos em nível internacional, por outro lado, leva à consideração de que o direito da mulher é universal e a violência em seu lar é, desse modo, um tema internacional.

Existem, também, trabalhos de investigação da questão de gênero na construção das estruturas de poder. J.Ann Ticker, em Gender in International Relations, expõe a construção masculino-sexista das concepções realistas, marxistas e liberais das Relações Internacionais, pois elas consideram dadas as estruturas patriarcais sociais do Estado e do sistema internacional. Como alternativa, a autora propõe um processo de inclusão, de baixo para cima, que inclua as experiências femininas dentro do campo da segurança internacional.





> para quem tiver interesse no tema feminismo e relações internacionais, deixo o link para a dissertação de uma colega da minha turma do mestrado: Gênero e Relações Internacionais: uma crítica ao discurso tradicional de segurança


Depois do assunto pesado e antes da nota pesada, um pouco de arte, daquelas que arrepiam!




NOTA – para quem se interessa, autoras feministas pós-Guerra fria:

Cynthia Enloe – um dos grandes nomes do campo feminista das Relações Internacionais. Do seu trabalho, depreende-se que a base para a high politics é dada pelas mulheres como um todo, sejam elas esposas, namoradas, prostitutas, trabalhadoras ou consumidoras.

Sua obra clássica é Banana, bases and beaches. Destaca a experiência das mulheres como centrais ao entendimento das relações internacionais. Mostra uma visão sexista de sete arenas nas quais se realiza a política internacional: turismo, nacionalismo, bases militares, diplomacia, força de trabalho feminina na agricultura, têxteis e serviços domésticos. A autora argumenta que a estabilidade do sistema econômico internacional depende das relações políticas e militares entre os Estados que, por sua vez, dependem de comunidades políticas e militares estáveis que são de responsabilidade de esposas, namoradas, prostitutas e anfitriãs. No turismo, o uso da imagem das mulheres facilita a venda de viagens e o turismo sexual aparece como mais uma forma de dominação masculina internacional. Nas bases militares, as esposas dão suporte aos maridos em longas missões no exterior e, como operárias e consumidoras, sustentam o comércio internacional.

Na obra The morning after: sexual politics and the end of the Cold War, a autora chama a atenção para o papel das mulheres russas no final da Guerra Fria, em que as mães, cansadas dos sacrifícios de seus filhos na Guerra ex-URSS-Afeganistão, passaram a deslegitimar o poder militar soviético. Em relação à Guerra do Golfo, ela quebra com a tradicional visão de aliados x Iraque, para contar a experiência de empregadas domésticas filipinas que, vítimas da pobreza em seu país, foram obrigadas a procurar trabalho no Kuwait e lá foram vítimas de abusos sexuais nas casas de seus patrões. Com a guerra, foram vítimas de estupros cometidos por soldados iraquianos. Apesar de vítima, o Kuwait é criticado por ser um país agressor das mulheres, excluídas da vida política e constantemente vítimas de agressões masculinas.

Jane S. Jaquette – uma leitura interessante de ser feita e, guardadas as devidas proporções, relacionada à situação do Brasil atual, com várias mulheres entrando cada vez mais na política.

Na obra Feminism and the challenges of the post-Cold War, a autora mostra que, apesar da democratização pós-Guerra Fria que em muitos lugares produziu um aumento das mulheres na vida política (especialmente onde foram implementadas cotas), as políticas neoliberais continuam a predominar e as mulheres estão longe de sua emancipação. A preocupação é que o aumento da participação feminina na política ainda não produziu resultados transformadores. Isso seria parcialmente explicado pela agenda político-econômica construída ainda durante a Guerra Fria, na qual as mulheres se tornaram adesistas ou radicalistas (procurando reformas mínimas dentro da estrutura existente ou opondo-se a tudo que saía dos Estados). Para ela, é preciso produzir rapidamente avanços na Teoria Feminista que lidem com as crescentes desigualdades.