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6 de nov de 2013

livro aleatório - sexo

“Imagine como eu era entre os trinta e os quarenta e poucos, na minha opinião a melhor idade para qualquer mulher, com a exceção da que se casa para engordar, realçar a celulite, usar meias contra varizes, assistir a novelas, entrar em concursos de televisão, limpar o catarro dos filhos e o próprio e encher o saco do adúltero de meia tigela que a sustenta. Eu era ótima, mas ótima mesmo, não dessas ótimas de segundo time esforçado que você vê por aí, mas ótima mesmo, Afrodite, Helena de Tróia, Frinéia! Não dou ousadia a contemporâneas, talvez Ava Gardner. Um pouco de Ava Gardner e Sophia Loren no apogeu. E me sinto um pouco desperdiçada, embora infinitamente menos do que a maioria avassaladora. Quero e não quero voltar àquele tempo. Ambivalências, sempre fui muito ambivalente. Não pareço, mas sou, é uma condição bastante interna, mas sou; ninguém diz, mas sou.”
João Ubaldo Ribeiro. A Casa dos Budas Ditosos.



Reli tudo que eu havia escrito e, na sequência, reli este livro. Reler algo que eu já havia, inclusive, relido anteriormente. A sensação, cada vez que leio algum livro do qual gosto muito, é de que sou medíocre. Inevitavelmente, sou. Ainda assim, escrevo. E, a cada vez que releio algo que eu escrevi, a leitura é diferente. Basta mudar a perspectiva, o modo de olhar para o que foi escrito.

Auto crítica. Um defeito ou uma qualidade. De qualquer forma, algo que tenho demais. Não consigo sequer ler o que escrevo sem criticar, faria isso com os outros? Peguei o livro 50 Tons de Cinza emprestado com uma amiga e não consegui passar da vigésima página. A prosa simples e não muito sofisticada do João Ubaldo, à qual me refiro neste texto, é genial. Cada releitura de A Casa dos Budas Ditosos é um novo olhar, são novas descobertas: sobre a história, o autor, a sociedade e, também, sobre mim.

Atenção. Não entenda errado. Não estou me referindo à temática e ou a quaisquer ideologias contidas nestes livros. Já li autores cuja ideologia contida no que escreveram me dá, no mínimo, vontade de vomitar. Os releio sempre que preciso entender como pensam. Porém, eles escrevem bem, imprimem veracidade às personagens, usam e abusam de funções da linguagem, desenvolvem um ritmo de narrativa condizente com a trama que estão contando. Até historiadores fazem isso! Hobsbawm, por exemplo, é leitura obrigatória sempre (digamos que tenho problemas com alguns posicionamentos ideológicos dele ao narrar a história).

Óbvio que isso tudo é a minha opinião. Se todos concordassem com o que penso, eu teria certeza de estar conectada à Matrix. Ou minha coca-cola está contaminada com algum alucinógeno. Peço somente uma coisa aos leitores entusiastas dos 50 Tons: leiam!


“Essa noite eu tive um sonho. Grande bobagem, nada disso. Não era assim que eu queria começar, não é assim. Essa noite eu tive um sonho -- parece diário de colégio de freiras, não é nada disso. Mas, de fato, eu tive um sonho. Um sonho inesperado, com aqueles dois budazinhos ali. Antigamente eu sonhava muito com eles, mas parei faz décadas, tudo faz décadas. São muito pequenininhos, os detalhes se perdem, comprei num camelô de Banguecoque, é um objeto sentimental. Não lembro onde li a respeito de dois Budinhas, um macho e uma fêmea fazendo sexo, essas coisas milenares de chinês, nunca entendo direito, misturo as datas, apronto a maior confusão. Havia uma espécie de templo, a Casa dos Budas Ditosos -- não é bonitinho, a casa dos Budas ditosos? eu acho --, com imagens iguais a essas, só que enormes.

Os noivos, antes do casamento, iam lá para venerar estátuas e passar as mãos nos órgãos genitais delas. Era uma espécie de aprendizado ou familiarização, uma introdução a um casamento bom na cama. Eu acho de um bom gosto delicadíssimo. Em Roma antiga, houve um tempo em que noivas acariciavam a glande de Príapo, ou se sentavam nela. Pelo que eu li, a glande mais usada, a glande pública, por assim dizer, devia ser uma verdadeira poltrona.

Príapo foi substituído por São Gonçalo, no nosso politeísmo católico. Os católicos são politeístas. Desculpe, se você é católico. Aliás, naturalmente que eu também fui criada como católica, tinha aulas de catecismo, fiz primeira comunhão vestida de organdi branco, só falava o estritamente necessário na sexta-feira santa, só comíamos peixe toda quinta-feira e assim por diante. Mais ainda, fui criada para considerar os protestantes gentinha e ficava com raiva de Lutero, que me parecia a feição do demônio, nos livros de História Geral. Levei um certo tempo para me livrar dessa estupidez, veja você; hoje, tenho até bastante afinidade com os protestantes, exceto os calvinistas e, óbvio, esse pentecostalismo histérico e de baixa extração, que ora nos assola. O magistério da Igreja me enerva.

Prefiro eu mesma ler a Bíblia e pensar do que leio o que me parece certo pensar, quero eu mesma me inteirar das boas novas, sem nenhum padre de voz de tenorino gripado me ensinando incoerências subestimando minha inteligência e repetindo baboseiras inventadas, semelhantes à desfaçatez de afirmar que no Pentateuco há mandamentos como guardar castidade, que os homens santos não batizados foram para um tal de limbo e tantas outras criações conciliares, já li a Bíblia de cabo a rabo e nunca vi nada disso nela.”


Esse é o início de A Casa dos Budas Ditosos. Imediatamente, me dá vontade de continuar lendo. Linguagem simples. Inteligente, ácida, crítica. Lotada de referências (ideológicas inclusive) para quem souber como achá-las. A narrativa, por si só, é uma delícia de ser lida. O relato daquela mulher de 68 anos, baiana residente no Rio de Janeiro, é daqueles gostosos de serem lidos (entendam como quiserem). Ela é livre. Uma liberdade gostosa de ser lida e curtida com ela.



Desejo que se deliciem com a luxúria, sem manual, com liberdade e imaginação. A Casa dos Budas Ditosos em pdf AQUI – divirtam-se com a leitura! Não tem a desculpa de falta de $$$ para não ler o livro hein...


DICA: O último livro aleatório teve liberdade e Giannetti. Se interessar, leia AQUI.









Não encontrei este video legendado, mas segue a fala e a tradução (fica o recado):

“We must constantly look at things in a different way. See, the world looks very different from up here! You don't believe me? Come see for yourself, c'mon! Just when you think you know something, you have to look at it in another way, even though it may seem silly or wrong, you must try! Now when you read, don't just consider what the author thinks, consider what you think. Boys you must strive to find your own voice...”
“Devemos sempre olhar para as coisas de uma maneira diferente. Veja, o mundo parece muito diferente daqui de cima! Você não acredita em mim? Venha ver por si mesmo, vamos lá! Justamente quando você pensa que sabe alguma coisa, você tem que olhar para ela de outra forma, mesmo que possa parecer bobo ou errado, você deve tentar! Agora, quando você ler, não basta considerar o que o autor pensa, pense no que você pensa. Meninos, vocês devem se esforçar para encontrar sua própria voz ...”