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21 de nov de 2013

viagens e aprendizados

Quando viajo, tento me desconectar do mundo. Conheço pessoas, lugares, descubro coisas (sobre mim mesma, inclusive). Minha conexão é com aquela realidade, com aquele lugar. Uma cidade, mesmo quando visitada pela enésima vez, sempre tem coisas novas a oferecer. Cores, odores, sabores, sons.

Dificilmente acesso redes sociais quando viajo – seja qual for o motivo da viagem. Acho desperdício de tempo. Para alguns, certamente é um atestado de solidão. Para outros, palco para auto promoção e massagens no ego. Há aqueles que apenas empregam mal seu tempo.

Sou a favor de compartilhar. Em viagens, pessoas cruzam nosso caminho para que compartilhemos aqueles momentos irreproduzíveis com elas. O ser humano parece ter desaprendido a compartilhar sons, odores e sabores. Só se interessa pelas imagens. Mostra-se ao mundo e deixa de abrir-se a pequenos mundos.

Cada pessoa que conheço por aí é um pequeno novo mundo, um aprendizado. Não as troco por elogios, admiração ou mesmo inveja das redes sociais. A obsessão que algumas pessoas têm em exibir o grande feito de terem viajado lhes fecha a percepção. O importante não é o outro lado da tela quando existem pessoas cara a cara. Sei que exposição ao vivo é complicada de controlar, mas é ela que propicia mudanças, aprendizado.

Em minha última viagem, aprendi que até uma das maiores empresas do mundo (no seu segmento de atuação) pode ser extremamente desorganizada e empregar gente despreparada. Lógica, planejamento e gerenciamento de tempo para quê, se pode-se criar uma versão curta metragem de um reality como No Limite? Bate papo e entrevista olho no olho para quê, se pode-se ficar de cabeça baixa olhando para uma tela de computador e digitando?

Há muito entendi que seleções são, quase sempre, jogos de cartas marcadas. Idéias feministas e sobre sexualidade livre agradam sim – desde que embaladas para serem palatáveis, causar polêmica, estejam sob controle ou não causem choque e estranheza. Eu queria ganhar dinheiro para tirar férias, conhecer o apresentador que não posso dizer o nome (talvez até dizer-lhe certas verdades em rede nacional) e, de quebra, ser ouvida. O problema é que eu e minhas idéias jamais estaríamos sob controle.

Não sigo regras das quais discordo, não faço alianças por interesse, não entro em matilhas, não interpreto personagens. Quais meus maiores defeitos e qualidades? Aí estão – e por isso quem me conhece de perto geralmente me ama ou me odeia. Sabe o que mais se pode adicionar na lista? Sou incapaz de sentir-me a vontade e ter uma conversa solta, franca, com quem não olha nos olhos. Minha sensação é de que a pessoa não está interessada e nem prestando atenção – na maioria das vezes, não está mesmo. Na moral: como você quer conhecer alguém se você sequer olha para a pessoa enquanto fala com ela?

Claramente, não faço parte das cartas marcadas. Seja como for, sempre pago para ver. Não foi diferente agora: paguei. E valeu. Não fosse pelo breve confinamento, não teria conhecido a Luana, as Maris, os dentistas, a fisioterapeuta – pessoas lindas que conversam olhando no olho. Tornaram tudo mais colorido e suportável – até as horas de estômago vazio em uma sala quente. Lamento pelos que genuinamente se de decepcionaram ao ver como as coisas funcionam por dentro e ficaram tristes ao perceber que não são uma das cartas marcadas do jogo. Bem vindos à realidade!

Liberta da ilusão, utilizei a desculpa de uma seleção para viajar. Reforcei laços de uma amizade que perdura há 26 anos. Aprendi que amor por alguém e estar aberto a alguém independe de os defeitos desse alguém serem os mesmos há 26 anos. Revi minha birra com o Woody Allen por meio de uma aula de interpretação da Cate Blanchett. Reencontrei amigos antigos e, por meio deles, conheci novos. Ganhei amiga que certamente levarei para a vida. Refleti sobre mudanças – internas, externas e geográficas.

Não ser uma das cartas marcadas – e saber-se como tal – tem a vantagem de nos permitir aproveitar até mesmo a comprovação de uma tese. Ou teses, à escolha do cliente. Quais sejam: uma pessoa como eu jamais seria escolhida para ser mico adestrado de circo (é, não sou adestrável) e as pessoas por aí, quando viajam, empregam mal seu tempo (despender esforços para conectar-se ao virtual, a imagens? Really?).


Disconnect and be happy people! A fábrica de ilusões, seja ela qual for, é só isso: uma fábrica de ilusões. Desconectar-se disso e viver a realidade, conhecer pessoas e lugares, embriagar-se de cheiros, sabores, sons, idéias... Vale a pena e recomendo. Mas se você gosta, almeje sem culpa ser um produto descartável e seja feliz à sua maneira.