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23 de dez de 2013

mulheres na Idade Média

Durante os primeiros séculos da Idade Média, antes da reintrodução dos princípios do Direito Romano, as mulheres tinham alguns direitos, garantidos pela lei e pelos costumes. Quase todas as profissões, assim como o direito de propriedade e de sucessão, eram acessíveis. Há registros, inclusive, de mulheres da burguesia participando de assembléias, com direito a voto.

Estudos demográficos revelam que havia predominância do contingente feminino adulto (na distribuição da população por sexo). O afastamento dos homens era freqüente, devido às constantes guerras, longas viagens ou recolhimento à vida monástica. As mulheres assumiam os negócios da família em sua ausência. Historicamente, a maior participação da mulher na esfera não doméstica esteve sempre ligada ao afastamento do homem por motivo de guerras.

A mulher participou também das Corporações de Ofícios, atuando como aprendiz e, por morte do marido, como mestre. O acesso às Corporações significou a possibilidade de receber instrução profissional, direito que ela viria a perder nos séculos posteriores. Como nem tudo são flores... A ascensão da mulher ao cargo de mestre tinha restrições: viúva, só poderia ocupá-lo pelo período de um ano em alguns burgos e, em outros, enquanto não mantivesse relações sexuais com outro homem (oi?).

Há registros de mulheres exercendo tarefas masculinas, como a serralheria e a carpintaria, embora se concentrassem nas profissões femininas: tecelagem, costura, bordados. A indústria doméstica, ligada à tecelagem e à produção de alimentos, era dominada pelas mulheres. Diversas vezes, essa indústria doméstica era a principal fonte de renda ou uma complementação necessária do orçamento familiar. Participavam do comércio ao lado dos maridos e, viúvas, freqüentemente permaneciam comerciantes. Não era incomum uma herdeira gerir sua própria herança, ainda que casada. Mulheres economicamente autônomas, comerciantes ou exercendo outras atividades, aparecem nos registros de Corporações e nos registros administrativos – independente de seu estado civil.

O trabalho feminino, entretanto, sempre recebeu remuneração inferior ao do homem. Cabe lembrar que, na Idade Média, diferente do que acontecerá no Renascimento e na Reforma, o trabalho, as artes e o conhecimento científico não eram então considerados como valores em si, nem eram instrumentos de ascensão social. O poder, monopólio da nobreza e do clero, baseava-se na posse da terra e na ascendência espiritual. Desta forma, a participação da mulher no mercado de trabalho não conferia a ela qualquer prestígio social.

Na educação, registros de mulheres freqüentando universidades são (quase) insignificantes. No século XIV, (o número impressionante de) 15 mulheres estudaram medicina e exerceram a profissão em Frankfurt (em Bolonha, algumas mulheres se formaram em Medicina e Direito).

Christine de Pisan, escritora francesa no século XIV, foi a primeira mulher a ser indicada como oficial da corte. Tinha um discurso conscientemente articulado em defesa dos direitos da mulher. Defendia a igualdade entre os sexos. Afirmava a necessidade de se dar às meninas uma educação idêntica à dos meninos: “Se fosse costume mandar as meninas à escola e ensinar-lhes as ciências, como se fazem aos meninos, elas aprenderiam da mesma forma que estes e compreenderiam as sutilezas das artes e ciências, tal como eles”.

Viúva aos 25 anos, Christine sustentou a família: mãe, 2 irmãos e 3 filhos. Manteve-se economicamente independente como escritora. Escreveu A Cidade das Mulheres, no qual afirma serem homens e mulheres iguais por sua própria natureza. Refutava as generalizações que imputam inferioridade ao sexo feminino e condenava a dupla moral (pela qual o mesmo ato é crime quando praticado pela mulher e apenas pequeno defeito quando pelo homem).

Apesar da participação da mulher na vida social e econômica da Idade Média, a idéia que prevaleceu foi aquela transmitida pelo romantismo de cavalaria: uma mulher frágil, à espera de seu cavaleiro (some things never change...). Esta imagem, que por um lado exclui a grande massa de mulheres até de uma representação simbólica, por outro reflete uma visão distorcida do que seria o cotidiano da própria castelã. Existe uma defasagem entre a posição concreta da mulher na vida cotidiana e a representação simbólica de seu papel (incrível como isso se repete, não?).



Faltou escrever sobre a Caça às Bruxas – fica para a próxima (afinal, o texto já ficou grande). Para quem tiver interesse, outros textos sobre o passado e relacionados ao assunto: