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3 de jan de 2014

caça às bruxas

Já falei sobre a posição da mulher na Idade Média, mas deixei de comentar a perseguição que ficou conhecida como caça às bruxas. Neste período, a maldição bíblica de Eva acompanhou a mulher. Existiu uma contradição interna no pensamento da Igreja medieval, oscilando entre as figuras de Maria, exaltada, e Eva, denegrida. Prevaleceu, na mentalidade eclesiástica da época, a formação e o triunfo do tabu sexual. Eva é responsável pela queda do homem e é considerada, portanto, a instigadora do mal. Esse estigma, que se propaga por todo o sexo feminino, se traduz na perseguição ao corpo da mulher, tido como fonte de malefícios.

Esse genocídio contra o sexo feminino na Europa e nas Américas foi pouco estudado e denunciado. Teve início na Idade Média e se exacerbou no século XVI, início do Renascimento. Milhares de mulheres foram assassinadas e torturadas (para cada 10 bruxas contava-se 1 bruxo) e isso pouco despertou a curiosidade dos historiadores em geral. Se esse genocídio tivesse sido perpetrado essencialmente sobre o sexo masculino, seria objeto de análises mais profundas?

A Inquisição não perseguiu somente a bruxaria. Os hebreus, considerados hereges, também foram atingidos pelos tribunais eclesiásticos. No entanto, essa perseguição aos hebreus foi bem registrada pela história.

Na perseguição às feiticeiras existe um elemento de luta pela manutenção de uma posição de poder por parte do homem: a mulher, tida como bruxa, supostamente possuiria conhecimentos que lhe confeririam espaços de atuação que escapavam ao domínio masculino. O discurso científico, por exemplo, foi impregnado deste estigma.

Ambroise Paré, médico e cientista ilustre do século XVI, via no organismo feminino a prova da inferioridade da mulher:

“Porque o que o homem tem externamente a mulher o tem internamente, tanto por sua natureza quanto por sua imbecilidade, que não pode expelir e pôr para fora estas partes.” Ele acrescentava que os órgãos sexuais femininos tornam as mulheres “disformes e vergonhosas quando nuas” e, em relação à menstruação, afirmava: “Porque as mulheres são de temperatura fria, em relação aos homens, a sua alimentação não se transforma num sangue bom, tanto que a maior parte se torna indigesta e se transforma em menstruações, das quais a mulher sadia se purga e se limpa”. François Rabelais, outro grande médico, adotou posições idênticas, concluindo que o corpo “histérico” da mulher só poderia conduzi-la à desordem moral (qualquer semelhança com discursos atuais seria mera coincidência?).

O discurso médico andava de mãos dadas com o discurso religioso. A medicina passou a se instaurar como instituição masculina que advogava o monopólio do saber e do poder de cura – sobretudo pela perseguição à prática feminina do trato com ervas e ao atendimento aos partos. A mulher, curandeira e parteira, secularmente encarregada da saúde da população, era o principal concorrente a ser eliminado para o estabelecimento da hegemonia da medicina.

O Tribunal da Inquisição se instaurou no século XIV, quando profundas transformações econômicas e políticas desestruturavam as bases do modo de produção feudal (no qual a mulher participava ativamente). Tais transformações – mercantilismo, formação dos Estados Nacionais, reintrodução do Direito Romano – afastaram a mulher da esfera pública. Ao mesmo tempo, o poder eclesiástico que se afirmou pela Inquisição é essencialmente masculino: progressivamente, a mulher se viu afastada da hierarquia e da atuação nos ritos desta instituição religiosa.

No discurso inquisitorial, a associação estabelecida entre bruxaria e mulher se explicita pela atribuição de conotações nitidamente sexuais aos rituais, chamados de culto ao demônio: neles, as mulheres copulariam com o demônio. É pelo sexo que ela se faz bruxa (sexo considerado, por natureza, impuro e maléfico).

As mulheres queimadas não se distinguiam das demais por possuírem uma natureza diferente. Elas somente exerceram determinados malefícios inerentes a qualquer mulher. Era a natureza feminina que ardia nas fogueiras da Idade Média e início do Renascimento.

“Se hoje queimamos as bruxas, é por causa de seu sexo feminino”, dizia Jacques Sprenger, inquisidor e teórico da demonologia, que publicou, no final do século XV, um manual de base do caçador de bruxas, o Malleus Maleficarum, no qual se remetia aos textos sagrados para comprovar a inferioridade feminina. Ele afirmava: “A mulher é mais carnal que o homem; vemos isto por suas múltiplas torpezas. Existe um defeito na formação da primeira mulher, pois ela foi feita de uma costela curva, torta, colocada em oposição ao homem. Ela é, assim, um ser vivo imperfeito, sempre enganador.”

O protestantismo não significou uma queda nesta perseguição às mulheres. Ao contrário, tanto Lutero quanto Calvino aderiram à mesma, apoiados na Bíblia. Segundo alguns autores, se estabeleceu uma competição entre as duas religiões no que se refere à caça às bruxas.

Jules Michelet, em Sobre as Feiticeiras, transcreve alguns números: por ordem de seu bispo, a cidade de Genebra queimou, no ano de 1515, em apenas 3 meses, 500 mulheres; na Alemanha, o Bispado Bamberg queimou de uma só vez 600, e o de Wurtzburgo, 900. As confissões eram extraídas sob tortura e mesmo contra qualquer evidência, como afirma Michelet:

“O processo é simples. Começar por utilizar a tortura para as testemunhas. Extrair ao acusado, à custa de sofrimentos, qualquer confissão. Uma feiticeira confessa ter roubado do cemitério o corpo de uma criança. Desenterram-no e lá o encontram dentro do caixão. O Juiz, porém, resolve, contrariando o que os olhos lhe dizem, que se trata de uma aparência, um engano do Diabo. Ela é queimada”.


Cabe lembrar que não apenas as instituições da Inquisição e da medicina condenavam a mulher. Discursos de intelectuais e de humanistas, como Jean Bodin, também a estigmatizavam como inferior e impura, contribuindo para a justificação ideológica de sua desvalorização.