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29 de abr de 2014

grandes piadistas

Enquanto discute-se nas redes sociais os palhacinhos que, em vez de nariz vermelho, resolveram usar bananas para adentrar o picadeiro... o prêmio de maior piadista vai para…


 


Hitler dizia que “as grandes massas do povo caem mais facilmente numa grande mentira do que numa pequena”. Nosso ex-presidente parece ser adepto disso, ou acredita que "uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”... ou então ele apenas surtou mesmo e está ouvindo vozes. Em entrevista à TV portuguesa RTP (íntegra da entrevista AQUI), além de desqualificar o trabalho do STF (resposta de Joaquim Barbosa AQUI), nosso onipresente comediante afirmou que o mensalão não existiu e que não tem intimidade, digamos assim, com os réus. Toda a entrevista é um misto de cinismo, estupidez e falta de apreço pela verdade, mas enfim...

José Genoino comandou o PT quando ele era presidente, Delúbio Soares foi o arrecadador do dinheiro de sua campanha e José Dirceu exerceu até o cargo de ministro-chefe da Casa Civil. Ainda assim, o piadista se distancia dos réus que, segundo ele, não seriam de sua confiança... ok, mas se o escândalo não existiu, qual a necessidade disso? Qual a necessidade de dar atestado de incompetência assim, dizendo que não confia nem nos ministros que ele próprio nomeia? Dá licença que vou ali fundar um partido político junto com gente que não é da minha confiança...

Outra coisa: ele e sua sucessora indicaram a maioria dos ministros do STF... e agora ele desqualifica o trabalho da Corte? Está passando atestado de incompetência por indicarem políticos, e não magistrados sérios, para esta função? Ou é só rancor por terem indicado quem não protegeu seus companheiros no julgamento? Podemos jogar no lixo documentos, perícias, testemunhos e demais provas que constam das 5000 páginas dos autos do mensalão, já que o julgamento foi totalmente político e o escândalo, em si, sequer existiu on the first place

Para não dizer que discordo dele em tudo, também acho que essa história do mensalão será recontada. DEVE. É apenas uma questão de tempo saber o que aconteceu na verdade? Que seja! Desde que ele, nosso molusco comediante, também seja bastante investigado. Para mim só há duas hipóteses: ou o piadista é mentiroso em nível épico (sabe, participou e afirma que não sabe de nada, o inocente), ou tão incompetente que não sabe o que fazem aqueles que estão ao se redor... Em ambas as hipóteses, não serviria para administrar nem uma empresa, que dirá um país!

Tem como dar o troféu de maior piadista para outra pessoa?...rs... Ó o retrato falado do campeão.

Os piadistas do início – aqueles que adentraram o picadeiro portando bananas – ficam, diante disso, apenas ridículos, sem noção, desnecessários. Ainda assim, merecem menção honrosa. Que campanha sem nenhuma consciência é essa, de que somos todos macacos? #somostodoscinicosoportunistas né... Custa, na falta de noção e bom senso, pedir conselhos a ativistas, ao movimento negro... ANTES de fazer um circo desses? Vocês, que derramam chorume ao ouvir falar em cotas, estão segurando bananas e aplaudindo essa campanha infeliz por quê? Queridos palhacinhos, ninguém é macaco: somos cúmplices, isso sim. E, por gentileza, antes de saírem emitindo opinião em coro, reflitam.

Caso não tenha ficado claro para quem está empunhando bananas: “O racismo é algo muito sério. Vivemos no Brasil uma escalada assombrosa da violência racista. Esse tipo de postura e reação despolitizadas e alienantes de esportistas, artistas, formadores de opinião e governantes tem um objetivo certo: escamotear seu real significado do racismo que gera desde bananas em campo de futebol até o genocídio negro que continua em todo o mundo.” Leia o resto em: Contra o racismo nada de bananas, nada de macacos, por favor!

Muitos links inseridos em dois parágrafos né... Deixo mais dois para os comediantes que receberam essa menção honrosa: Somos todos racistas e A bananização do racismo. Se, depois de ler estes parágrafos finais e os links que estão inseridos neles, você continuar repetindo, sem nenhuma reflexão, que somos todos macacos... colega, sinto dizer, mas estás mais próximo de ser um quadrúpede ruminante do que um primata #ficaadica


28 de abr de 2014

livrinho infantil sobre gêneros

Uma amiga, recentemente, lançou o livrinho "GÊNEROS: Identidades e Orientações Sexuais" – é, como ela mesma diz, apenas um livro, e como tal é livre. Não se trata de uma cartilha escolar e nenhuma criança será obrigada a lê-lo (infelizmente, pois esse tipo de leitura deveria ser obrigatória para evitar que cresçam tantos adultos preconceituosos que desrespeitam, pura e simplesmente, outras pessoas...).




O livro explica algumas coisas em linguagem simplificada, inteligível para crianças. Antes de jogá-lo na fogueira, as pessoas deveriam lembrar-se disso. Outra lembrança: lê quem quer. No livro, a explicação, tanto genética quanto de teoria de gênero, não é dada em profundidade. Nem deveria, visto que o público alvo não tem ainda capacidade de compreender uma linguagem mais complexa.




Teorias genéticas e de gêneros são mais profundas – isso não significa que não se possa plantar a sementinha, nas crianças, que as leve a respeitar diferenças quando crescerem (ou mesmo que as leve a ter interesse de estudar tais teorias com mais profundidade no futuro). Para que haja respeito não é necessário entender teorias em profundidade: só é necessário desconstruir esse modelo heteronormativo que invisibiliza e desrespeita tudo que não cabe nele.




Isso não é dar aula de gayzismo às crianças – como dizem alguns por aí (seja lá o que gayzismo significa - não achei a palavra no dicionário). Nem é disponibilizar material pornográfico (sorry, a internet faz isso...rs...), tampouco é ensinar promiscuidade (sorry, a vida ensina...rs...). É apenas ensinar que todas as pessoas merecem respeito: ao próprio corpo, à própria identidade e ao próprio desejo. E se você, adulto, ainda não entende que todos merecemos respeito, por gentileza leia o livrinho: de repente, desenhando em linguagem simples, você consiga entender.




Download do livro para impressão e encadernação livre AQUI.






todas as imagens são do livro - copyright @daiarafigueroa

27 de abr de 2014

sheherazade não é o problema

Desnecessário dizer que acho a tal Sheherazade uma anta desonesta intelectualmente – está implícito AQUI o que penso dela e de outros como ela. E, anônimos ou não, esses outros como ela... ah, são muitos! Incontáveis, inumeráveis... mas não quero que eles sejam calados e, se depender de mim, deixa Sheherazade falar!

 


Apesar do seu mais famoso comentário ter sido, no mínimo, irresponsável, leviano e preconceituoso... Apesar de seu discurso incitar a violência, direta ou indiretamente, além de desrespeitar o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Declaração Universal dos Direitos Humanos... Que se tomem as medidas legais cabíveis sempre que algum comunicador infringir quaisquer leis e/ou princípios éticos, e que se cobre um perfeito funcionamento do judiciário nesse sentido.

Não, esse texto não é sobre a Rachel. Sim, acho as opiniões dessa jornalista abjetas, além de rasas e burras. Tenho náuseas ao ver a quantidade de gente que a aplaude e concorda com o que ela diz. E liberdade de expressão não é desculpa para incitar ódio e violência, muito menos para disseminar preconceitos e desrespeitar os direitos individuais de outrem. Mas... não posso aplaudir nenhum tipo de cerceamento dessa liberdade (nem para calar uma anta), afinal Liberdade de Expressão e Democracia caminham de mãos dadas.

Esse texto é sobre? Talvez seja sobre direitos que ainda demonstram uma insuficiência no modo como são praticados: os direitos de livre expressão e de liberdade de imprensa. Importantes para a democracia, até hoje é necessário afirmar sua dificuldade em abarcar aspectos cruciais colocados em cena pela nossa sociedade estruturada e ambientada pela comunicação. Há necessidades sociais de assegurar esses direitos e outros que, agregados a eles, possibilitem o aprofundamento da democracia política e social.

Alguns direitos são imprescindíveis à democracia. O direito à privacidade; um direito de resposta eficaz; um direito que garanta a responsabilização ágil e adequada dos autores, individuais e coletivos, de produtos midiáticos; um direito que assegure certa autonomia e proteção aos trabalhadores de comunicação. Esse conjunto de direitos é condição essencial para o funcionamento pleno da democracia. Entretanto, qualquer conjunto de direitos que apenas pretenda proteger o cidadão não consegue equacionar os problemas se não for aplicado de forma eficaz.

Há, também, a inevitável questão da regulação, inclusive normativa, do espaço eletrônico em rede, que pode ser formulada como direito de acesso, trânsito e permanência de entes e ideários na dimensão pública midiatizada. Também é necessário um direito que assegure a imprescindível pluralidade política e cultural deste ambiente de sociabilidade, as redes (como fazer isso? não sei...).

Tal pluralidade – nas redes e fora delas – só pode ser conquistada e renovada por meio de dispositivos, inclusive legais, que limitem o poderio da lógica de interesses de mercado e das injunções dos poderosos, constituindo normas de funcionamento e de controle social democráticos, sem recorrer a mecanismos inadequados como a censura.

Logicamente, acho que comunicadores, sejam de que área forem, deveriam ter algum bom senso e mais responsabilidade ao emitir opiniões, principalmente se estiverem em um veículo que atinge milhões, como a TV – mas censurá-los não é uma opção. E o grande problema dos veículos de comunicação no Brasil, das novas e velhas mídias, não é a falta de bom senso de alguns...

O real problema estaria no legislativo? No judiciário ineficaz? Não sei, cada um com suas teorias... Oligopólios sim, são um problema – mas é melhor não falar sobre eles, não é mesmo? O financiamento público de meios de comunicação privados e de agências de publicidade, direta e indiretamente, também é sim, um problema – mas também é melhor não falar sobre isso.


24 de abr de 2014

público (não necessariamente) controlado pela mídia

Lembram da grande pensadora contemporânea na prova de filosofia? Após dizer AQUI que achava (e continuo achando!) a provocação do professor uma desculpinha para justificar a questão rasa e que reinventar não é nivelar por baixo... Deixo mais algumas sugestões para professores de ensino médio que queiram debater com seus alunos sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade.

Saindo das Teorias de Comunicação clássicas (deixei link para resumo delas AQUI), autores contemporâneos como Manuel Castells e Fredric Jameson, por exemplo, consideram que se vive hoje uma terceira fase do capitalismo. Nela, a informação se transforma na mercadoria mais valiosa.

Se a informação é a mercadoria mais valiosa... que tal avaliar com os alunos o que é veiculado na imprensa (como, quando, onde, porque, de que forma)??? Um veículo jornalístico focado na crítica da mídia é o Observatório da Imprensa – dêem uma olhada nos artigos que aparecem por lá... sempre tem material para debate. 


 


 Algumas variáveis para discussão:


 - Papel desempenhado pela comunicação midiática como modo, cada vez mais crescente, de experienciar e conhecer a vida, a realidade, o mundo – do qual um exemplo é o nº de horas que os meios ocupam na vida das pessoas;
- Presença e abrangência das culturas midiáticas como circuito cultural, que organiza e difunde socialmente comportamentos, valores, sentimentos e ideários; dominância e sobrepujamento da cultura midiatizada sobre os outros circuitos culturais existentes (a exemplo do 'escolar-universitário');
- Aumento dos gastos com o item comunicações no orçamento doméstico das famílias e dos indivíduos;
- Crescimento vertiginoso dos setores voltados para a produção, circulação, difusão e consumo de bens simbólicos.

Essas e outras variáveis delimitam uma nova sociedade, estruturada e ambientada pela mídia. A incidência da comunicação, além disso, afeta em profundidade a configuração da sociabilidade atual, pois ela se vê composta e perpassada pelo espaço eletrônico, a televivência e a globalização – há uma disponibilização cotidiana de um fluxo de signos e sentidos provenientes de uma extração global e não apenas de um local contíguo.


 



O espaço eletrônico em rede, consumado pela mídia e povoado de televivências globalizantes, constrói uma nova dimensão constitutiva da sociabilidade contemporânea: a telerrealidade, expressão empregada por Muniz Sodré em A Máquina do Narciso (outra dica de leitura!).

A nova dimensão se distingue da realidade, tradicionalmente entendida como territorialidade (geográfica), localidade, proximidade, materialidade, presença e convivência. Há uma nova formação da realidade, com espaços e tempos integrados em rede eletrônica, associada às noções de desterritorialização, globalidade, distância, espaço planetário, desmaterialização, não-presencialidade, (tele)vivência e tempo real. A telerrealidade surge com a TV aberta, mas se fortalece com a TV por assinatura e, principalmente, as novas tecnologias (entre elas a internet).

A realidade contemporânea é fragmentada em uma realidade contígua, (con)vivida no entorno por cada indivíduo, e uma realidade remota, não inscrita no mapa de proximidades, (tele)vivida planetariamente e em tempo real. Esse caráter composto tem outra consequência: impõe o descolamento entre a existência e o existir publicamente.

Falar em uma sociedade estruturada e ambientada pela mídia não significa a aceitação de uma supremacia automática da comunicação sobre o resto. Nas novas circunstâncias de ambientes configurados pela mídia, existe possibilidade de emergência de novas configurações da sociedade, pois ela é afetada pela presença de novas possibilidades de espaços, formatos e ingredientes, bem como pela redefinição de alguns de seus antigos componentes: se as novas configurações serão positivas ou negativas, depende também da qualidade da informação que a sociedade tem a sua disposição.


That’s all folks! O texto se alongou mais do que deveria e, implícita e explicitamente, juntando essa com a postagem anterior (link no 1º parágrafo!), deixei várias sugestões para debates sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade - talvez para enriquecer o debate, sem nivelá-lo por baixo.





NOTA: se a justificativa do tal professor para a presença da questão na prova fosse que, dentro dos aspectos referentes à Teoria do Desenvolvimento Moral (contexto esse explicado por seu aluno), estava sendo discutido algo como "quem tem o direito de pensar? por quê?", por exemplo, eu não chamaria sua justificativa de desculpinha: faz todo o sentido discutir isso, usando o funk como exemplo, em filosofia moral. TODO O SENTIDO. Mas vem com essa de provocar a mídia e de debater o papel da mídia na formação dos valores morais da sociedade... e seu aluno escreve aquele texto, sobre o público controlado pela mídia? Façam-me o favor e leiam ESSE TEXTO, sobre o mesmo assunto, antes de aplaudirem qualquer coisa por aí só porque a mídia malvada golpista controla o público.

UPDATE em 27/04: como tornar aulas de filosofia interessantes e reinventar sem nivelar por baixo (e sem a necessidade de pseudo provocações à mídia malvada e ao público controlado pela mídia)??? Veja AQUI uma ideia.

21 de abr de 2014

carta a Eduardo Campos



foto no "camarote do governador" 
Prezado Eduardo Campos,


Talvez eu cogitasse votar em você após ter conhecido melhor o seu estado. Até 2012, o que eu conhecia de Pernambuco resumia-se a Fernando de Noronha. No final daquele ano, o trabalho me permitiu passar por Caruaru, Recife, Olinda, Maracaípe, Carneiros, Ipojuca... indo além dos resorts e paraísos para turistas endinheirados, conversei com muita gente, conheci muita coisa, andei por muitas estradas. No carnaval de 2013, voltei a trabalho e, dessa vez, passei por Nazaré da Mata, Bezerros, Recife e Olinda. Estive, inclusive, no seu camarote, na Torre Malakoff (chamam de “camarote do governador” por lá ).

Devo dizer, também, que minha equipe foi muitíssimo bem recebida, bem orientada e bem tratada por todos – dos órgãos institucionais, como Empetur, aos privados, como Associação dos Hotéis de Porto de Galinhas. Apesar dos problemas ainda visíveis, especialmente para a população mais pobre, recomendo Pernambuco para qualquer turista. E essa população mais pobre, ou humilde, também nos recebeu e tratou bem em todos os lugares.

Nas conversas informais, o que chamamos de povo em geral tem as mesmas reclamações que o povo tem em qualquer outro estado do país. Ao mesmo tempo, em geral eles também dizem que “esse governador melhorou muitas coisas”. Esse governador, Eduardo, era você. E talvez, após conhecer melhor seu estado, eu pensasse em votar em você, já que acredito que a rotatividade de partidos no poder é importante para a democracia e, francamente, estamos sem opções e não merecemos mais anos de Dilma/PT.

Após sua aliança com Marina, perdeu meu possível voto. Sabe o que é? Tenho sérias objeções com gente que mistura fé pessoal e política – e esse sempre me pareceu ser o caso da Marina. Minhas objeções ficam mais sérias ainda quando vejo o que conservadores, como os da bancada evangélica, tem feito – ignorando, desprezando e desrespeitando os direitos de LGBTTs e de mulheres... em alguns casos, tentando até mesmo retroceder em alguns desses direitos (e com a "complacência" e o silêncio da atual presidente, diga-se).

E no domingo de Páscoa você afirma ser contra a legalização do aborto, ao mesmo tempo em que diz não querer tratar sobre o assunto eleições? Posicionar-se contrário ao aborto, em um santuário, ao lado de um cardeal, não é já estar tratando sobre o assunto eleições? Escolha interessante de palavras dizer que não conhece ninguém que seja a favor do aborto – talvez “a favor do aborto” ninguém seja mesmo... Mas ao contrário do senhor, acho que nossa legislação é inadequada para tratar do assunto (além de não ser cumprida) e que deve sim ser alterada. Leia essa entrevista – esse ginecologista e obstetra coloca bem a questão e assino embaixo do que ele diz.

Sou a favor da descriminalização e da legalização do aborto. Conheço muita gente como eu e posso te apresentar. Por que sou a favor? Porque sou a favor do direito de escolha. Porque amanhã, se eu estiver grávida, quero poder escolher como terei ou não meu filho. Porque amanhã, se eu estiver grávida e optar por um aborto, quero fazê-lo com segurança, quero poder falar abertamente sobre ele sem correr o risco de ser enquadrada como criminosa. Porque amanhã, se eu estiver grávida, quero poder escolher meu parto sem correr o risco de ser coagida a nada, sem sofrer violência obstétrica. Porque quero que qualquer mulher que esteja grávida possa isso tudo – afinal, é ela, e só ela, que vai viver com as conseqüências de suas escolhas.

Então, caro Eduardo, talvez você não conheça ninguém a favor do aborto, mas já cumprimentou alguém a favor do direito de escolha e que gostaria que os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres fossem tratados de forma mais séria pelo Estado, que deveria ser laico e se abster de julgamentos sobre escolhas pessoais, focando na cidadania, nos Direitos Humanos e em questões de saúde pública (e isso vai muito além da questão do aborto e não se resume a ela, embora a inclua). Entre outros temas que dizem respeito aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, e por relacionar-se com eles, o aborto deve ser sim tema da eleição

Atenciosamente,
Sua não eleitora.


P.S.: leia também O aborto, as eleições e o truque retórico de Eduardo Campos e, por gentileza, se não quiser ouvir nenhuma mulher falar sobre esse assunto, assista ao vídeo abaixo. Grata.






19 de abr de 2014

recalque e inveja

Popularmente, recalque tem sido empregado como sinônimo de inveja. O dicionário Houaiss traz as seguintes acepções para as duas palavras:

INVEJA
n substantivo feminino
1 desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia
2 desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem
3 Derivação: por extensão de sentido.
objeto da inveja

RECALQUE
n substantivo masculino
1 ato ou efeito de recalcar; recalcamento
2 Rubrica: enologia.
ato de rebaixar a manta para não azedar e permitir a obtenção de vinho tinto com mais corpo e cor
3 Rubrica: psicanálise.
mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias


 



É normal que a língua popular se aproprie de termos e que estes sejam resignificados no uso diário, corrente. Não é isso que a Marcha das Vadias faz com a palavra vadia, por exemplo? Uma palavra de uso pejorativo, de uma mulher que leva vida devassa ou amoral, ser utilizada como uma mulher que é livre é uma resignificação válida – assim como o é utilizar recalque como sinônimo de inveja. Apenas achei que os grandes pensadores contemporâneos deviam saber que, originalmente (e de acordo com a norma culta), recalque não é inveja.

Recalque é o ato ou efeito de dominar, de concentrar, de reprimir aspirações, desejos, instintos. Uma defesa automática e inconsciente com que são repelidas idéias. Para Freud, é uma das pedras angulares da psicanálise. Consiste em um mecanismo que remete para o inconsciente: emoções, pulsões e afetos que são considerados repugnantes – um tipo de auto-censura, digamos.

Recalque é um mecanismo por meio do qual tentamos eliminar do nosso consciente representações que consideramos inaceitáveis. Tentamos manter ao nível inconsciente emoções, desejos, lembranças ou afetos que podem entrar em conflito com a visão que temos de nós mesmos ou da nossa relação com o mundo. A repressão desses sentimentos para o inconsciente não os elimina – e pode ou não causar distúrbios no indivíduo.

Ou seja, não necessariamente o recalque causa alguma patologia. É interessante pensar que recalcamos justamente pensamentos, ideias, fantasias e lembranças que não se ajustam à imagem ideal que temos do mundo e de nós mesmos. De acordo com Freud, esses assuntos que recalcamos geralmente estão associados a modos de satisfação sexual em desacordo com o que achamos certo.


Qual o problema disso? Investimos uma energia muito grande em assuntos recalcáveis que, mesmo recalcados, continuam poderosos. Nossa consciência não os aceita porque não condizem com os nossos ideais (ou o que aprendemos como se fossem nossos) e descarregamos a energia a eles vinculada de outras formas... em esquecimentos, sonhos, sintomas neuróticos... e, por que não, em inveja?

17 de abr de 2014

hannibal

Admito: comecei a assistir a 1ª temporada de Hannibal por curiosidade, preparada para me decepcionar... Quebrei a cara. Já passamos da metade da 2ª temporada e a decepção ainda não veio. Por sinal, essa 2ª temporada é explosiva e já mostrou a que veio logo em seu 1º episódio: um flash foward tenso, uma briga de facas entre Lecter e Jack Crawford... e volta-se para 12 semanas antes, ao ponto no qual a 1ª temporada terminou. 

Não sei porque essa série parece ser pouco falada e assistida por aqui. Já vimos os personagens em filmes, mas eles são recriados na série e estabelecidos como únicos por seus intérpretes. A atuação é acentuada pela estética e pela fotografia distintas, pela trilha sonora, pelo roteiro, pela violência gráfica. Há densidade psicológica dos personagens, horror real, surpresas e, ao mesmo tempo, não há correspondência com a realidade. Hannibal não é divertida, mas entretêm e absorve o espectador para o universo mostrado.

Definitivamente, essa série não é apenas um subproduto da franquia do cinema e conseguiu ter originalidade, seguir um caminho inesperado.


 



 “Introduzir um serial killer na TV aberta era uma proposta ousada, ainda mais quando o assassino em questão é Hannibal Lecter, imortalizado por Anthony Hopkins na trilogia cinematográfica. Hannibal não só propôs o retorno do psicopata criado por Thomas Harris, mas entregou grandes promessas com destreza e de forma sutil, mostrando que séries criminais não precisam ser procedimentais para funcionar. 

A trama de Hannibal mostra o psiquiatra antes do cárcere, ajudando o FBI a resolver alguns crimes. Mais importante que isso, no entanto, acompanhamos de perto a peculiar relação entre Hannibal Lecter (Mads Mikkelsen) e Will Graham (Hugh Dancy) como médico e paciente, cientista e experimento, colegas de trabalho e amigos. É o relacionamento entre os dois que faz com que a série se destaque entre tantas outras, os desenvolvimentos em suas personalidades e nas interações com o restante da equipe do FBI. 

Co-escrito por Harris e Bryan Fuller, idealizador da série, o ótimo roteiro nunca deixa a desejar. Ao introduzir uma série que incita a presença da fórmula "um crime e sua solução por episódio", a atenção do público estadunidense, que acostumou-se ao formato, está capturada. A partir daí é gradativa a mudança de foco, até que nos percebemos não mais interessados na originalidade dos crimes macabros, mas na delicada manipulação de Hannibal em todas as situações a sua volta. 

(...) Hannibal funciona como um todo, um grande filme com 13 horas de duração, pois ao nos oferecer uma pista, é necessário tempo para que sua recompensa seja alcançada.” 

A crítica acima não é de minha autoria e pode ser lida na íntegra AQUI.

15 de abr de 2014

depoimento de uma grávida

“Marquei a cesárea para a última sexta-feira, às 10 da manhã. A gravidez de minha filha já estava na 40ª semana. Eu e meu marido, após pesquisarmos e conversarmos bastante, decidimos que essa era a melhor opção e que não havia mais motivos para esperar. Meu obstetra concordou, embora a equipe do hospital discordasse e tentasse nos convencer a esperar um pouco mais.

No dia marcado, chegamos cedo ao hospital. Ansiosos, seguimos todas as instruções, fizemos todos os preparativos. Eu estava mais calma do que meu marido quando fomos levados para a sala de cirurgia – tê-lo como acompanhante nesse momento ajudava a me tranqüilizar. Recebi a anestesia e, a partir desse momento, não lembro mais do que aconteceu. Acordei algum tempo depois, algemada a uma cama de hospital. A cesárea não havia sido feita.

Uma outra médica do mesmo hospital acionou o Ministério Público para impedir a cirurgia. No laudo apresentado, diziam que era desnecessária, contrariava as indicações da OMS e poderia trazer riscos para mim e para minha filha. A juíza acatou o pedido de intervenção. Meu marido, que não pode ficar neste quarto comigo o tempo todo, me disse que o centro cirúrgico foi invadido por um oficial de justiça acompanhado de policiais armados.

Ficarei aqui neste quarto da enfermaria, presa a esta cama, até entrar em trabalho de parto. Recebo apenas as visitas das enfermeiras, que vem para me alimentar e checar se está tudo bem. Meu marido não tem permissão para ficar aqui o tempo inteiro. Hoje minha filha deveria estar completando uma semana de vida e já deveríamos estar em casa, mas ela ainda não nasceu.

O que me dizem é que a cesárea que tanto sonhei só será feita como última alternativa, caso o parto normal não seja possível. Até lá, ficarei aqui, esperando para conhecer minha filha. Me sinto uma criminosa. Como tantas mulheres, fui impedida de escolher como parir e serei obrigada a sentir dores de um parto que não desejei. Estou muito triste com tudo isso.”




O depoimento acima é fictício. Nada impede, entretanto, que se torne realidade. Absurdo? Sim. Mas não é também absurdo que uma mulher seja retirada de sua residência, na calada da noite, e seja escoltada por homens armados até o hospital, para ser obrigada a fazer uma cesárea?

Não estou grávida. Até o presente momento, sequer penso em ser mãe. Não tenho o tal relógio biológico que tantos falam – ou então o meu veio quebrado. Se o sonho de toda mulher é casar e ter filhos, não devo ser mulher... Nada impede que amanhã eu pense diferente – por enquanto, meus sonhos são outros e meu instinto materno é inexistente.

De qualquer forma, me preocupo com a falta de autonomia que as mulheres tem sobre seus próprios corpos – a julgar pelo que aconteceu há poucos dias, mulheres são apenas chocadeiras e não tem voz diante de qualquer discurso de qualquer médico (mesmo que tal discurso ignore os riscos de uma cirurgia e recomendações internacionais). Nenhuma novidade, afinal no mínimo desde a Idade Média nosso corpo é fonte de todos os males, incapaz, controlado.

Não cabe a mim convencer ninguém sobre qual o melhor tipo de parto – cada grávida sabe de si, sabe o que está disposta a escolher e a renunciar. Não cabe a ninguém impedi-la de fazer suas escolhas e de enfrentar as conseqüências de tais escolhas. O que nos cabe é respeitar sua autonomia – é ela, e só ela, que vai conviver com os resultados de seus atos.

Direitos do nascituro não me convencem quando ele, ao crescer, é tratado com desrespeito, como se fosse uma simples chocadeira – em ambos os casos, o da grávida fictícia e o da verdadeira, o nascituro era do sexo feminino. E perdeu todos os direitos ao sair do útero.



Sobre o caso em questão:

12 de abr de 2014

popozuda e militância

Pausa nas férias do blog para comentar rapidamente dois assuntos recentes...


1- A intelectual popozuda e a resposta de um aluno que tem circulado na internet

Quando vejo expressões como “público controlado pela mídia”, minha primeira reação costuma ser ter vontade de chorar (ou de rir, dependendo do caso). A Teoria de Projétil da Comunicação já caiu por terra ok  #ficaadica

Quando quiserem falar sobre “público controlado pela mídia”, ou debater sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade, que tal além de Teoria do Desenvolvimento Moral, estudarem e discutirem algumas Teorias de Comunicação? (deixo, inclusive, link para uma apostila resumida AQUI) Ou, se quiserem argumentar sobre Valesca Popozuda, que tal estudarem um pouco mais sobre Indústria Cultural? Ou até mesmo, se for para fugir do tema, quem sabe um pouco do desenvolvimento da propaganda a partir de Goebbels e fazer uma ligação disso com Filosofia Política, Totalitarismos, cenário político atual? Apenas acho que seria mais produtivo para nossos futuros pensadores contemporâneos... 

Não sei... apenas algumas sugestões de uma pessoa que acha esse papinho de “público controlado pela mídia” uma das desculpas mais rasas já usadas para justificar a presença de uma grande pensadora contemporânea (com W!!!) em uma prova de filosofia (ainda mais dessa forma tosca, numa questão mais rasa do que a desculpinha...). Reinventar não é nivelar por baixo ok.



NOTA: sim, acho importante debater sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade - e em época de eleições recomendaria inclusive alguns estudos sobre mídia e políticacomunicação e política... mas enfim, fico cá com meu recalque, afinal, se for para debater qualquer coisa, melhor mesmo é ignorar pesquisas, estudos e teóricos especializados na tal coisa.

Antes que me xinguem, posso sugerir um documentário para debate, pelo menos?








2- Assessor de deputada do PT hostiliza Barbosa e agora o PSDB denuncia e pede exoneração do tal assessor

Óbvio que o alvo dessas notícias não é o assessor, sim a deputada. Dessa forma, prezados jornalistas, pesquisem a vida das pessoas direito antes de crucificá-las e, se optarem pela crucificação, o façam pelos motivos certos e sem apelar para mentiras. O tal playboy da vida boa dirige um fusca velho fudido e vocês colocam uma foto tendenciosa, como se ele estivesse dirigindo uma lancha que ele não tem?

A deputada está certa quando diz que seu assessor não estava trabalhando e usou seu direito de manifestação e certa quando diz que o direito à manifestação é uma premissa da democracia. Certíssima. Ao contrário do jornalista Gabriel Castro, eu não a questionaria sobre porque o militante profissional continua sendo bancado pelo dinheiro público - ele tem direito de militar e de se manifestar fora do expediente, por mais que achemos abjeta a manifestação.

Pode-se questionar, porém, porque o dinheiro público paga um cidadão com condenação criminal, ou mesmo porque uma deputada que defende os direitos das mulheres tem entre seus assessores um cidadão citado em processos em Juizado de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher (divirtam-se pesquisando essas e outras curiosidades AQUI). Ou questionar se a deputada tem conhecimento de notícias como essa, de 2007...



DICA: comparem o que políticos defendem publicamente, a defesa que fazem de alguns temas que lhes são caros (e que lhes dão votos)... comparem isso com a “ficha” dos laranjas/coitados/assessores que trabalham para eles (conhecem o Google? ou o sistema online de consultas processuais dos TJs? então...). 





UPDATE em 17/04:


Kubitschek, o provocador: "a escola pública é tão mal considerada quanto o funk" - muita gente aplaudindo este texto e o professor, então resolvi postá-lo. Continuo achando a provocação do professor uma desculpinha para justificar a questão, rasa e burra e, de minha parte, não tenho preconceito com escola pública (inclusive estudei nela há alguns milênios...). Meu problema é com a educação no Brasil mesmo, pública e privada, que em geral está uma lástima e premia a mediocridade em todos os níveis. 


Assessor que hostilizou Barbosa pede exoneração - interessante a nota dele... Especialmente se comparada com as respostas e vinculações da Veja quase no mesmo dia (AQUI , AQUI , AQUI e AQUI). Gostaria somente de fazer duas observações: é muita covardia de quem discorda dele e das meninas envolvidas enviar até ameaças de estupro (oi? acusam-nos de não serem civilizados em sua manifestação contra o Barbosa e agem de forma animalesca, com ameaças???) e... pediu exoneração por livre e espontânea vontade ou foi convidado a pedi-la para não sobrar para a deputada e o partido?