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21 de abr de 2014

carta a Eduardo Campos



foto no "camarote do governador" 
Prezado Eduardo Campos,


Talvez eu cogitasse votar em você após ter conhecido melhor o seu estado. Até 2012, o que eu conhecia de Pernambuco resumia-se a Fernando de Noronha. No final daquele ano, o trabalho me permitiu passar por Caruaru, Recife, Olinda, Maracaípe, Carneiros, Ipojuca... indo além dos resorts e paraísos para turistas endinheirados, conversei com muita gente, conheci muita coisa, andei por muitas estradas. No carnaval de 2013, voltei a trabalho e, dessa vez, passei por Nazaré da Mata, Bezerros, Recife e Olinda. Estive, inclusive, no seu camarote, na Torre Malakoff (chamam de “camarote do governador” por lá ).

Devo dizer, também, que minha equipe foi muitíssimo bem recebida, bem orientada e bem tratada por todos – dos órgãos institucionais, como Empetur, aos privados, como Associação dos Hotéis de Porto de Galinhas. Apesar dos problemas ainda visíveis, especialmente para a população mais pobre, recomendo Pernambuco para qualquer turista. E essa população mais pobre, ou humilde, também nos recebeu e tratou bem em todos os lugares.

Nas conversas informais, o que chamamos de povo em geral tem as mesmas reclamações que o povo tem em qualquer outro estado do país. Ao mesmo tempo, em geral eles também dizem que “esse governador melhorou muitas coisas”. Esse governador, Eduardo, era você. E talvez, após conhecer melhor seu estado, eu pensasse em votar em você, já que acredito que a rotatividade de partidos no poder é importante para a democracia e, francamente, estamos sem opções e não merecemos mais anos de Dilma/PT.

Após sua aliança com Marina, perdeu meu possível voto. Sabe o que é? Tenho sérias objeções com gente que mistura fé pessoal e política – e esse sempre me pareceu ser o caso da Marina. Minhas objeções ficam mais sérias ainda quando vejo o que conservadores, como os da bancada evangélica, tem feito – ignorando, desprezando e desrespeitando os direitos de LGBTTs e de mulheres... em alguns casos, tentando até mesmo retroceder em alguns desses direitos (e com a "complacência" e o silêncio da atual presidente, diga-se).

E no domingo de Páscoa você afirma ser contra a legalização do aborto, ao mesmo tempo em que diz não querer tratar sobre o assunto eleições? Posicionar-se contrário ao aborto, em um santuário, ao lado de um cardeal, não é já estar tratando sobre o assunto eleições? Escolha interessante de palavras dizer que não conhece ninguém que seja a favor do aborto – talvez “a favor do aborto” ninguém seja mesmo... Mas ao contrário do senhor, acho que nossa legislação é inadequada para tratar do assunto (além de não ser cumprida) e que deve sim ser alterada. Leia essa entrevista – esse ginecologista e obstetra coloca bem a questão e assino embaixo do que ele diz.

Sou a favor da descriminalização e da legalização do aborto. Conheço muita gente como eu e posso te apresentar. Por que sou a favor? Porque sou a favor do direito de escolha. Porque amanhã, se eu estiver grávida, quero poder escolher como terei ou não meu filho. Porque amanhã, se eu estiver grávida e optar por um aborto, quero fazê-lo com segurança, quero poder falar abertamente sobre ele sem correr o risco de ser enquadrada como criminosa. Porque amanhã, se eu estiver grávida, quero poder escolher meu parto sem correr o risco de ser coagida a nada, sem sofrer violência obstétrica. Porque quero que qualquer mulher que esteja grávida possa isso tudo – afinal, é ela, e só ela, que vai viver com as conseqüências de suas escolhas.

Então, caro Eduardo, talvez você não conheça ninguém a favor do aborto, mas já cumprimentou alguém a favor do direito de escolha e que gostaria que os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres fossem tratados de forma mais séria pelo Estado, que deveria ser laico e se abster de julgamentos sobre escolhas pessoais, focando na cidadania, nos Direitos Humanos e em questões de saúde pública (e isso vai muito além da questão do aborto e não se resume a ela, embora a inclua). Entre outros temas que dizem respeito aos direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, e por relacionar-se com eles, o aborto deve ser sim tema da eleição

Atenciosamente,
Sua não eleitora.


P.S.: leia também O aborto, as eleições e o truque retórico de Eduardo Campos e, por gentileza, se não quiser ouvir nenhuma mulher falar sobre esse assunto, assista ao vídeo abaixo. Grata.