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15 de abr de 2014

depoimento de uma grávida

“Marquei a cesárea para a última sexta-feira, às 10 da manhã. A gravidez de minha filha já estava na 40ª semana. Eu e meu marido, após pesquisarmos e conversarmos bastante, decidimos que essa era a melhor opção e que não havia mais motivos para esperar. Meu obstetra concordou, embora a equipe do hospital discordasse e tentasse nos convencer a esperar um pouco mais.

No dia marcado, chegamos cedo ao hospital. Ansiosos, seguimos todas as instruções, fizemos todos os preparativos. Eu estava mais calma do que meu marido quando fomos levados para a sala de cirurgia – tê-lo como acompanhante nesse momento ajudava a me tranqüilizar. Recebi a anestesia e, a partir desse momento, não lembro mais do que aconteceu. Acordei algum tempo depois, algemada a uma cama de hospital. A cesárea não havia sido feita.

Uma outra médica do mesmo hospital acionou o Ministério Público para impedir a cirurgia. No laudo apresentado, diziam que era desnecessária, contrariava as indicações da OMS e poderia trazer riscos para mim e para minha filha. A juíza acatou o pedido de intervenção. Meu marido, que não pode ficar neste quarto comigo o tempo todo, me disse que o centro cirúrgico foi invadido por um oficial de justiça acompanhado de policiais armados.

Ficarei aqui neste quarto da enfermaria, presa a esta cama, até entrar em trabalho de parto. Recebo apenas as visitas das enfermeiras, que vem para me alimentar e checar se está tudo bem. Meu marido não tem permissão para ficar aqui o tempo inteiro. Hoje minha filha deveria estar completando uma semana de vida e já deveríamos estar em casa, mas ela ainda não nasceu.

O que me dizem é que a cesárea que tanto sonhei só será feita como última alternativa, caso o parto normal não seja possível. Até lá, ficarei aqui, esperando para conhecer minha filha. Me sinto uma criminosa. Como tantas mulheres, fui impedida de escolher como parir e serei obrigada a sentir dores de um parto que não desejei. Estou muito triste com tudo isso.”




O depoimento acima é fictício. Nada impede, entretanto, que se torne realidade. Absurdo? Sim. Mas não é também absurdo que uma mulher seja retirada de sua residência, na calada da noite, e seja escoltada por homens armados até o hospital, para ser obrigada a fazer uma cesárea?

Não estou grávida. Até o presente momento, sequer penso em ser mãe. Não tenho o tal relógio biológico que tantos falam – ou então o meu veio quebrado. Se o sonho de toda mulher é casar e ter filhos, não devo ser mulher... Nada impede que amanhã eu pense diferente – por enquanto, meus sonhos são outros e meu instinto materno é inexistente.

De qualquer forma, me preocupo com a falta de autonomia que as mulheres tem sobre seus próprios corpos – a julgar pelo que aconteceu há poucos dias, mulheres são apenas chocadeiras e não tem voz diante de qualquer discurso de qualquer médico (mesmo que tal discurso ignore os riscos de uma cirurgia e recomendações internacionais). Nenhuma novidade, afinal no mínimo desde a Idade Média nosso corpo é fonte de todos os males, incapaz, controlado.

Não cabe a mim convencer ninguém sobre qual o melhor tipo de parto – cada grávida sabe de si, sabe o que está disposta a escolher e a renunciar. Não cabe a ninguém impedi-la de fazer suas escolhas e de enfrentar as conseqüências de tais escolhas. O que nos cabe é respeitar sua autonomia – é ela, e só ela, que vai conviver com os resultados de seus atos.

Direitos do nascituro não me convencem quando ele, ao crescer, é tratado com desrespeito, como se fosse uma simples chocadeira – em ambos os casos, o da grávida fictícia e o da verdadeira, o nascituro era do sexo feminino. E perdeu todos os direitos ao sair do útero.



Sobre o caso em questão: