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24 de abr de 2014

público (não necessariamente) controlado pela mídia

Lembram da grande pensadora contemporânea na prova de filosofia? Após dizer AQUI que achava (e continuo achando!) a provocação do professor uma desculpinha para justificar a questão rasa e que reinventar não é nivelar por baixo... Deixo mais algumas sugestões para professores de ensino médio que queiram debater com seus alunos sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade.

Saindo das Teorias de Comunicação clássicas (deixei link para resumo delas AQUI), autores contemporâneos como Manuel Castells e Fredric Jameson, por exemplo, consideram que se vive hoje uma terceira fase do capitalismo. Nela, a informação se transforma na mercadoria mais valiosa.

Se a informação é a mercadoria mais valiosa... que tal avaliar com os alunos o que é veiculado na imprensa (como, quando, onde, porque, de que forma)??? Um veículo jornalístico focado na crítica da mídia é o Observatório da Imprensa – dêem uma olhada nos artigos que aparecem por lá... sempre tem material para debate. 


 


 Algumas variáveis para discussão:


 - Papel desempenhado pela comunicação midiática como modo, cada vez mais crescente, de experienciar e conhecer a vida, a realidade, o mundo – do qual um exemplo é o nº de horas que os meios ocupam na vida das pessoas;
- Presença e abrangência das culturas midiáticas como circuito cultural, que organiza e difunde socialmente comportamentos, valores, sentimentos e ideários; dominância e sobrepujamento da cultura midiatizada sobre os outros circuitos culturais existentes (a exemplo do 'escolar-universitário');
- Aumento dos gastos com o item comunicações no orçamento doméstico das famílias e dos indivíduos;
- Crescimento vertiginoso dos setores voltados para a produção, circulação, difusão e consumo de bens simbólicos.

Essas e outras variáveis delimitam uma nova sociedade, estruturada e ambientada pela mídia. A incidência da comunicação, além disso, afeta em profundidade a configuração da sociabilidade atual, pois ela se vê composta e perpassada pelo espaço eletrônico, a televivência e a globalização – há uma disponibilização cotidiana de um fluxo de signos e sentidos provenientes de uma extração global e não apenas de um local contíguo.


 



O espaço eletrônico em rede, consumado pela mídia e povoado de televivências globalizantes, constrói uma nova dimensão constitutiva da sociabilidade contemporânea: a telerrealidade, expressão empregada por Muniz Sodré em A Máquina do Narciso (outra dica de leitura!).

A nova dimensão se distingue da realidade, tradicionalmente entendida como territorialidade (geográfica), localidade, proximidade, materialidade, presença e convivência. Há uma nova formação da realidade, com espaços e tempos integrados em rede eletrônica, associada às noções de desterritorialização, globalidade, distância, espaço planetário, desmaterialização, não-presencialidade, (tele)vivência e tempo real. A telerrealidade surge com a TV aberta, mas se fortalece com a TV por assinatura e, principalmente, as novas tecnologias (entre elas a internet).

A realidade contemporânea é fragmentada em uma realidade contígua, (con)vivida no entorno por cada indivíduo, e uma realidade remota, não inscrita no mapa de proximidades, (tele)vivida planetariamente e em tempo real. Esse caráter composto tem outra consequência: impõe o descolamento entre a existência e o existir publicamente.

Falar em uma sociedade estruturada e ambientada pela mídia não significa a aceitação de uma supremacia automática da comunicação sobre o resto. Nas novas circunstâncias de ambientes configurados pela mídia, existe possibilidade de emergência de novas configurações da sociedade, pois ela é afetada pela presença de novas possibilidades de espaços, formatos e ingredientes, bem como pela redefinição de alguns de seus antigos componentes: se as novas configurações serão positivas ou negativas, depende também da qualidade da informação que a sociedade tem a sua disposição.


That’s all folks! O texto se alongou mais do que deveria e, implícita e explicitamente, juntando essa com a postagem anterior (link no 1º parágrafo!), deixei várias sugestões para debates sobre o papel da mídia na formação dos valores da sociedade - talvez para enriquecer o debate, sem nivelá-lo por baixo.





NOTA: se a justificativa do tal professor para a presença da questão na prova fosse que, dentro dos aspectos referentes à Teoria do Desenvolvimento Moral (contexto esse explicado por seu aluno), estava sendo discutido algo como "quem tem o direito de pensar? por quê?", por exemplo, eu não chamaria sua justificativa de desculpinha: faz todo o sentido discutir isso, usando o funk como exemplo, em filosofia moral. TODO O SENTIDO. Mas vem com essa de provocar a mídia e de debater o papel da mídia na formação dos valores morais da sociedade... e seu aluno escreve aquele texto, sobre o público controlado pela mídia? Façam-me o favor e leiam ESSE TEXTO, sobre o mesmo assunto, antes de aplaudirem qualquer coisa por aí só porque a mídia malvada golpista controla o público.

UPDATE em 27/04: como tornar aulas de filosofia interessantes e reinventar sem nivelar por baixo (e sem a necessidade de pseudo provocações à mídia malvada e ao público controlado pela mídia)??? Veja AQUI uma ideia.