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19 de abr de 2014

recalque e inveja

Popularmente, recalque tem sido empregado como sinônimo de inveja. O dicionário Houaiss traz as seguintes acepções para as duas palavras:

INVEJA
n substantivo feminino
1 desgosto provocado pela felicidade ou prosperidade alheia
2 desejo irrefreável de possuir ou gozar o que é de outrem
3 Derivação: por extensão de sentido.
objeto da inveja

RECALQUE
n substantivo masculino
1 ato ou efeito de recalcar; recalcamento
2 Rubrica: enologia.
ato de rebaixar a manta para não azedar e permitir a obtenção de vinho tinto com mais corpo e cor
3 Rubrica: psicanálise.
mecanismo de defesa que, teoricamente, tem por função fazer com que exigências pulsionais, condutas e atitudes, além dos conteúdos psíquicos a elas ligados, passem do campo da consciência para o do inconsciente, ao entrarem em choque com exigências contrárias


 



É normal que a língua popular se aproprie de termos e que estes sejam resignificados no uso diário, corrente. Não é isso que a Marcha das Vadias faz com a palavra vadia, por exemplo? Uma palavra de uso pejorativo, de uma mulher que leva vida devassa ou amoral, ser utilizada como uma mulher que é livre é uma resignificação válida – assim como o é utilizar recalque como sinônimo de inveja. Apenas achei que os grandes pensadores contemporâneos deviam saber que, originalmente (e de acordo com a norma culta), recalque não é inveja.

Recalque é o ato ou efeito de dominar, de concentrar, de reprimir aspirações, desejos, instintos. Uma defesa automática e inconsciente com que são repelidas idéias. Para Freud, é uma das pedras angulares da psicanálise. Consiste em um mecanismo que remete para o inconsciente: emoções, pulsões e afetos que são considerados repugnantes – um tipo de auto-censura, digamos.

Recalque é um mecanismo por meio do qual tentamos eliminar do nosso consciente representações que consideramos inaceitáveis. Tentamos manter ao nível inconsciente emoções, desejos, lembranças ou afetos que podem entrar em conflito com a visão que temos de nós mesmos ou da nossa relação com o mundo. A repressão desses sentimentos para o inconsciente não os elimina – e pode ou não causar distúrbios no indivíduo.

Ou seja, não necessariamente o recalque causa alguma patologia. É interessante pensar que recalcamos justamente pensamentos, ideias, fantasias e lembranças que não se ajustam à imagem ideal que temos do mundo e de nós mesmos. De acordo com Freud, esses assuntos que recalcamos geralmente estão associados a modos de satisfação sexual em desacordo com o que achamos certo.


Qual o problema disso? Investimos uma energia muito grande em assuntos recalcáveis que, mesmo recalcados, continuam poderosos. Nossa consciência não os aceita porque não condizem com os nossos ideais (ou o que aprendemos como se fossem nossos) e descarregamos a energia a eles vinculada de outras formas... em esquecimentos, sonhos, sintomas neuróticos... e, por que não, em inveja?