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30 de mai de 2014

o zumbi reincidente

Ele resiste a tiros, fogo, decepamento. Passam-se anos, criam-se distâncias, colocam-se até oceanos no meio... adianta? O zumbi reincidente sempre levanta do túmulo para perturbar de alguma forma. Usar a psicologia infantil e ignorar não funciona, mandar se fuder tampouco. Em algum momento, a volta dos mortos vivos acontece sem ter sido requisitada.

Quem são esses zumbis? O que os motiva? De onde vem e para onde vão? Do que se alimentam? Como escolhem suas vítimas? Como ficar imune aos seus ataques? Que arma funciona contra eles? Perguntas... algum médium se dispõe a receber Freud para que ele possa tentar respondê-las?

É cada coisa que olha... Estou quase pedindo para ser internada em um hospício, já que o mundo pirou e lá dentro pelo menos os loucos estão medicados. Um dos ataques zumbis mais recentes foi recebido por essa maravilha chamada internet. Duas linhas, apenas.

“Estou com um menino Lindo da Suécia, toda vez que beijo vejo você. Não tem como vc esta em cada toque”

Oi? Qual é o problema dessa pessoa? Qual a sua fantasia mórbida? A quem tenta convencer com isso? Até hoje tentando se enganar sobre a própria sexualidade? Já não passou da idade da negação não? Acha que isso excita alguém, além dele mesmo? Amiguinho, viva plenamente sua sexualidade sem precisar da aprovação alheia e sem precisar justificar nada. Principalmente, sem encher o saco que nem tenho, já que nada tenho a ver com isso.

No cenozoico, tive um relacionamento com esse morto vivo – e espero que ele finalmente pare de tentar se encaixar em um padrãozinho heteronormativo que, obviamente, não é para ele. Seja feliz e me esqueça! Sobretudo, pare de tentar preencher as expectativas alheias quanto a uma sexualidade que não é a sua – a única pessoa que você deixa de agradar fazendo isso é a si mesmo. 






NOTA: Achei estranho o ataque zumbi, afinal posso não ser a menina boazinha delicadinha estilo Sandy, mas estou à milhas de distância de ser, digamos, masculina. Um homem o faz lembrar de mim? Oi? Investigações posteriores sobre o assunto apontaram, entre outras coisas, que o menino lindo da Suécia é, na verdade, uma travesti. Uma loira linda. Então, coleguinha zumbi, pare de se referir a ela como “o menino”. Quer continuar negando a si mesmo? Ok, mas não negue a identidade alheia.



27 de mai de 2014

por que tirar a dança da dança?

Dança vai muito além da estética... das aulas fitness que tem se proliferado por aí. Dia desses, me deparei com um texto que diz um pouco do que penso sobre o assunto e achei que valia a pena a tradução. Deixo o original, 'Ballet-Themed' Workouts: Why Take the Dancing Out of Dance?, para quem lê em inglês. Segue minha tradução livre:


Hoje vi mais um daqueles anúncios ao lado do meu navegador, tentando me vender mais uma daquelas aulas de treino de balé-temático. Ele tinha todas as características habituais: uma foto de uma jovem instrutora, magra, uma referência a Cisne Negro, uma declaração sobre bundas tonificadas, e, claro, a promessa de "parecer" (não mover-se, sentir-se, ou ser) uma bailarina. Claro, este treino não conteria qualquer técnica de balé e, certamente, nenhuma dança real.

Como bailarina de longa data, fico desanimada com tais movimentos comerciais, que conseguiram tirar a dança da dança. Ainda mais importante, eu vejo essa tendência de "treino de barra" como um sintoma de uma cultura que ensina as pessoas – especialmente as mulheres – a ter um relacionamento com seus corpos só do lado de fora – como eles parecem aos outros – ignorando a experiência interna do movimento.

Lembro-me da afirmação do crítico de arte John Berger sobre ambos os assuntos, pinturas e vida: "Os homens atuam e as mulheres aparecem”. As mulheres não podem agir sem estar constantemente cientes de sua aparência para um observador externo. Embora eu certamente não diria que os treinamentos masculinos ignoram a aparência, podemos ver claramente que este movimento de fitness focado no feminino – especificamente reivindicando fazer alguém parecer uma bailarina sem agir como uma – desempenha a noção de que os corpos das mulheres importam apenas pela forma, não pela função.

Às vezes, fico realmente surpresa como a maioria das pessoas tem uma visão tão limitada do objetivo do movimento e dos corpos. Quando digo às pessoas que sou uma estudante de dança, ou que danço 25 horas por semana, uma resposta comum é: "Uau, isso deve ser realmente um bom exercício."

Exercício – Tenho que me segurar para não rir. Como bailarinos, passamos anos internalizando as nuances da técnica, aprendendo coreografias, engajando-nos em processos criativos, aprimorando a arte, e aprendendo a tornarmo-nos destemidos e emocionalmente expostos no palco.

Dizer que dança é bom como exercício é como dizer que programação de computador é bom para a prática de habilidades de digitação: claro, isso acontece, mas não é o ponto principal.

E enquanto eu adoraria que mais pessoas apreciassem a arte do profissional da dança, tão importante quanto é o papel que a dança pode ter na vida dos não-profissionais que nem sequer se consideram "bailarinos". A dança tem sido usada ao longo da história como uma forma de ligação cultural, experimentação religiosa, cortejo, narração de histórias e diversão. Então, por que devemos apagar tudo isso de nossas vidas para concentrar exclusivamente em bundas malhadas?

Na verdade, sou um pouco cética em relação a todo o conceito de "exercício" como nós atualmente o compreendemos, o ato de mover o corpo isolado do resto de nossas experiências de vida. O movimento está confinado a uma hora programada do dia, escolhido especificamente para um fim estético particular, e divorciado, tanto quanto possível, de qualquer atividade intelectual ou emocional. Talvez seja um sintoma da dualidade cartesiana corpo-mente à qual continuamos nos mantendo agarrados: você pode ser um corpo por uma hora e, em seguida, voltar a ser uma mente para o resto da sua vida, mas os dois não devem se sobrepor.

Muito está em jogo com a nossa concepção de corpo e movimento. Muito tem sido dito sobre como ideais de beleza, tais como os vendidos nestes anúncios de fitness, impactam a auto-estima e a saúde mental – e com razão: estatísticas publicadas pela Associação Nacional de Anorexia Nervosa e Distúrbios Associados afirmam que 91 por cento das universitárias pesquisadas ​​tinham tentado fazer dieta e 35 por cento dos "seguidores de dietas normais” eventualmente se envolvem em dietas patológicas.

Entretanto, até movimentos populares de imagem corporal (pensem na campanha "Real Beleza" de Dove) reforçam a idéia de compreender e apreciar o corpo do lado de fora, dizendo às mulheres que elas realmente parecem "lindas". Mas e se começássemos a apreciar os nossos corpos para fazer, sentir e ser, em vez de apenas parecer?

O treinamento em dança nem sempre está associado à positividade corporal, mas mostra muitas maneiras de entender e apreciar o seu corpo que não estão relacionadas à aparência. Eu amo meu corpo porque ele me permite voar por meio de 20 minutos de saltos intensos. Eu amo meu corpo por causa da gama de possibilidades de improvisação que ele desbloqueia. Eu amo meu corpo por causa do prazer que sinto ao enviá-lo a um fluxo de coreografia contemporânea fluido. Na verdade, eu amo meu corpo, pois ele me permite levantar de manhã e caminhar e ver, ouvir e respirar.

Se você quer fazer essa aula fitness de treino de barra, vá em frente. Mas confie em mim, se você se der a chance de realmente experimentar internamente o movimento em seu corpo fora dos 60 minutos de levantamento de pernas – quer se trate de uma aula de balé iniciante, dançar nua em seu quarto, ou apenas tirar um momento para observar a sensação de seus músculos correndo através de seus ossos, sua pele acariciando seus músculos enquanto você rola para fora da cama de manhã – vale a pena.





A dança é para todas as idades e para todos os corpos!
“Danza y la edad no parece ser un matrimonio hecho en el cielo, pero a mi entender no deben ser vistos con escepticismo. A través de mi larga experiencia como bailarín , coreógrafo y director artístico , y a través de mis encuentros con las culturas de Asia oriental y los aborígenes australianos , me he enterado de que poseemos la habilidad de bailar a lo largo de toda nuestra vida y que debe ser valorada y respetábamos – Sí , estamos en condiciones de bailar “Desde el vientre materno hasta la tumba ” ….!
 Leia esse texto na íntegra AQUI

20 de mai de 2014

mulheres pós Idade Média

Por incrível que pareça, no período renascentista a posição da mulher sofreu um retrocesso. No feudalismo, seu espaço de atuação política era maior, já que a política se realizava a nível comunal. A formação dos Estados Nacionais e o processo de centralização do poder caminham de mãos dadas com o maior afastamento da mulher da esfera pública. Além disso, a reintrodução da legislação romana implicou uma redução dos direitos civis da mulher. Surgem restrições ao seu direito de adquirir bens por herança, reger seus próprios bens e representar-se na justiça.

Se durante a Idade Média a mulher atuou em praticamente todas as profissões, a partir do Renascimento determinadas atividades tornam-se gradativamente domínio masculino e as Corporações de Ofício se fecham à participação feminina. É durante este período, quando o trabalho se valoriza como instrumento de transformação do mundo, que o trabalho feminino passa a ser depreciado. Afastada de determinadas profissões, também se constrói uma ideologia de desvalorização da mulher trabalhadora.

Neste contexto, as mulheres não deixaram de trabalhar, já que as necessidades materiais e de sobrevivência sempre exigiram que o fizessem. A desvalorização do trabalho feminino, traduzida concretamente na atribuição de menor pagamento à mão de obra feminina, encontra sua lógica no processo de acumulação de capital, no qual a super exploração do trabalho da mulher (e do menor) cumpre função específica.

Não houve um afastamento da mulher da esfera de trabalho; sim formas próprias de sua inclusão. Ela é totalmente afastada de determinadas atividades, como a fabricação de cerveja e de velas, a serralheria e a fundição. Mesmo com presença significativa em determinados ramos de produção, como a indústria da seda e têxtil em geral, desempenha as atividades menos qualificadas e de menor remuneração.

Diante de tais empecilhos, a participação feminina no mercado de trabalho adquire peculiaridades. A partir do século XVII e, sobretudo, no século XVIII, contingentes cada vez maiores de mulheres passam a realizar trabalhos a domicílio, contratadas por intermediários. Atualmente, este tipo de trabalho ainda é largamente exercido pela mão de obra feminina, particularmente na indústria de confecção e em atividades domésticas.

Junto com a valorização do trabalho ocorrida neste período, cresce o respeito pela ciência e a preocupação com a aquisição do conhecimento. E, enquanto a instrução masculina se desenvolve em vários níveis, a educação feminina retrocede tanto na preparação profissional, quanto na formação intelectual. Não há registros de mulheres freqüentando universidades até meados do século XIX! Desaparecem médicas, cirurgiãs, advogadas. A obstetrícia, como um ramo do conhecimento científico ao qual só os homens tinham acesso, retira das mulheres o monopólio da profissão de parteira.

O ensino público e privado se expande na Europa e, ao mesmo tempo, a defasagem entre o número de escolas masculinas e femininas é imensa (em 1790, na Diocese de Rouen, por exemplo, a relação entre escolas para meninos e para meninas é de 4 por 1). Esta defasagem se dá em termos quantitativos e, também, no que se refere à qualidade do ensino. O currículo das meninas enfatizava o aprendizado das prendas domésticas e sua escolarização não as preparava para o ensino superior, que, aliás, sequer lhes era acessível.

É de se estranhar que as primeiras vozes de contestação feminina registradas pela história moderna se dirijam contra a desigualdade sexual no acesso à educação e ao trabalho? É de se estranhar qual a posição da mulher ainda hoje, no século XXI? Um pouco de história, além de não fazer mal, ajuda a compreender muito do que é o presente viu.


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16 de mai de 2014

filmes teen anos 80

Uma noite na cia da amiga insônia, zapeando entre os canais de TV a cabo, estava começando Sixteen Candles (Gatinhas e Gatões, no título em português), de 1984, no Telecine Cult. Há anos não assistia esse filme, sequer lembrava de toda a história. Assisti e faço algumas observações e comparações com filmes atuais sobre a mesma temática.


 


Trinta anos depois, o que aconteceu com Molly Ringwald, a musa teen dos anos 80? Virou mãe de protagonista na série adolescente The Secret Life of the American Teenager.

Molly jamais seria musa de nada atualmente. Lembrando e pesquisando rapidamente os filmes dos anos 80, percebi que protagonistas daquela época eram mais reais, mais parecidas com gente normal que encontramos no dia a dia. As musas teen emagreceram e ficaram mais plastificadas, perfeitas, irreais, inalcançáveis e seguem um padrão mais photoshopado


 


Há 30 anos, os personagens principais de todos os filmes adolescentes eram menos perfeitos, homens eram menos anabolizados, cabelos femininos de propaganda de xampu e peitorais masculinos esculpidos não eram a regra. Havia, como sempre houve na indústria cultural, um padrão de beleza... menos irreal, porém.

O que aconteceu com os pais dos filmes? O culto à juventude e à magreza parece ter se estendido a eles. Hoje em dia pais aparentam serem mais jovens, mais magros, usam mais botox e se parecem menos com pais da vida real.

Os temas dos filmes teen permanecem basicamente os mesmos – acho até que atualmente os filmes são, inclusive, mais conservadores e moralistas (apesar de mostrarem mais corpos perfeitos em exposição). A grande mudança, se existe alguma, é uma completa photoshopização dos protagonistas desses filmes. Que mensagem isso passa para os adolescentes?


 

12 de mai de 2014

Ney e os militontos

Pouco mais de duas semanas depois do grande piadista negar o mensalão e exaltar as conquistas da Terra Encantada em uma entrevista à TV portuguesa, Ney Matogrosso escancarou, durante um programa no mesmo canal, algumas verdades do Brasil real. Ao ouvir a pergunta “Como está o Brasil?”, Ney começa respondendo com “Existe um enorme desconforto” e continua: “O governo brasileiro está gastando bilhões de reais para fazer estádios, enquanto nos hospitais públicos as pessoas estão sendo jogadas no chão, em cima de um paninho”.

Ney falou sobre educação, transporte público, Bolsa Família e corrupção antes de fazer a pergunta que deveria ser feita por todos: “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar na Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”.


 


Foi o bastante para destilarem todo tipo de ignorância, incluindo homofobia, contra Ney. Motivo: ele ousou criticar o Sagrado Partido. Cadê o espanto? Basta criticar a política de distribuição de renda do governo PT para ser demonizado. O Bolsa Família foi colocado em um pedestal e qualquer um que faz uma crítica ao programa, fundamentada ou não, é transformado em um ser desprezível merecedor de todo o ódio – e esse pedestal é usado como escudo a qualquer crítica às inúmeras cagadas do governo.

Apesar de seus erros, o Bolsa Família ainda é necessário. Ney, ao falar sobre o programa, demonstrou desconhecimento e repetiu o senso comum – como pessoa pública, não precisava ter sido tão ignorante. Isso, entretanto, não invalida o resto de sua fala e a entrevista foi, em geral, positiva. É mentira que o Brasil não está a maravilha divulgada pelo PT? É mentira que esse negócio de todos terem virado classe média é uma falácia? É mentira o fascismo da polícia? É ruim um artista desse porte falar sobre essas coisas e ainda lembrar um caso emblemático, como Amarildo?

Quando os militontos entenderão que criticar o PT não significa apoiar o PSDB (e vice-versa)? Esse maniqueísmo cego é demência viu...




“(...)Tudo nesse governo é capitalista. Não há nenhuma política de esquerda em que possamos usar aquele atenuante “ah, o governo tem problemas, mas tirou 30 milhões de pessoas da miséria…“. Sério? Mesmo? Quando um governo gerencia um Estado privilegiando sempre os mais ricos, até mesmo na “política” de Direitos Humanos, ele produz miséria ao invés de combatê-la. Ao produzir miséria e miseráveis e usar o braço armado desse Estado contra qualquer oprimido que tente se rebelar/protestar, ter uma única política que tira pessoas da miséria e depois as joga na selva do capitalismo não é tirar pessoas da miséria, mas uma política social-democrata de redução de danos que no final das contas atrela essas pessoas ao voto de gratidão nesse governo. Isso é a velha política clientelista dos coronéis de outrora maquiada de “política social de distribuição de renda”. Tanto assim que os índices de desigualdade social permanecem os mesmos. Tirou pessoas da miséria? Sim, mas mantém a política que produz a miséria e os miseráveis.
O fato é que transformar miseráveis em consumidores não os transforma automaticamente em cidadãos. (...) Observar e evidenciar isso não é mérito nenhum além de não ser cego.”

9 de mai de 2014

Machado se revira no túmulo

Basta qualquer busca rápida no Google para achar reportagens e pesquisas que mostram sempre o mesmo: Brasil ocupa últimas posições em ranking internacional de educação. Faça o teste. Procure também sobre analfabetismo funcional. Os resultados são sempre vergonhosos. Nossa educação não vai mal, vai péssima mesmo. Talvez tenha vindo daí meu espanto quando soube que o Ministério da Cultura está patrocinando o assassinato de clássicos da literatura brasileira.

Minha dor veio da notícia de que uma escritora muda obra de Machado de Assis para facilitar a leitura. Ela decidiu reescrever clássicos da literatura brasileira já que, segundo ela, os estudantes se desinteressam de alguns livros porque certas palavras são difíceis. Vai, então, reescrevê-los. A primeira vítima é “O Alienista”, de Machado de Assis, a história do médico de loucos que terminou, ele próprio, no hospício.

Impressão minha ou a educação no país é que virou coisa de loucos e está no manicômio? Literatura não é só o que se diz: é, também, como se diz. E não seria uma das funções da escola ampliar o vocabulário dos estudantes? Além de ajudá-los a conhecer as particularidades de estilo dos autores? Se fosse português arcaico vá lá, adapte-se para o atual... mas não é o caso.

O que me dói mais nessa violência cultural é que Machado é justamente meu escritor brasileiro favorito. E o problema em Machado não é a língua: os textos são até simples no que diz respeito ao vocabulário. Seu diferencial é outro e está no estilo do autor. A questão é ele ser dado aos estudantes sem que estejam maduros para entendê-lo e apreciá-lo – e com esse pacto de mediocridade na educação, jamais estarão.

Tenho o hábito de fazer velhas e novas leituras (ou re-leituras... pois cada vez que releio um livro, ele se mostra diferente – ou eu o assimilo de outra forma, talvez). Exemplo disso é Machado de Assis. Não gostei quando me foi apresentado. Tive que reler, anos mais tarde, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Descobri outros romances, além de contos e crônicas do autor. Acho que jamais serei capaz de compreender plenamente a complexidade presente em suas obras... Não deixo de me surpreender a cada re-leitura.

Machado, assim como tantos outros, nos é apresentado de sopetão, na adolescência. Sem a interdisciplinaridade e a maturidade que suas obras pedem. Perdem, dessa forma, em atratividade. Acho que todo o sistema educacional está estruturado para que as pessoas não desenvolvam suas habilidades, não se interessem sequer pela prática de atividades físicas (há coisa mais enfadonha do que aula de educação física no colégio?...).

Precisamos repensar o próprio ensino de literatura. Esse sistema de ensino (des)educacional espera o que de obras clássicas? Que estudantes saibam apenas a trama, o básico da história, para passar no Enem e no vestibular? A experiência da leitura não se reduz a isso e, se for apenas para conhecer a história, é melhor nem obrigá-los a ler. 

Jeitinho brasileiro é isso: em vez de melhorarem e reformularem aspectos da educação para que os estudantes tenham condições de ler e apreciar um clássico pelo que ele é e representa, cometem-se assassinatos de obras. Parabéns a todos os envolvidos e aos que aplaudem esse tipo de coisa.


Leitura complementar: Os clássicos às machadadas


IMPORTANTE: 
Já assinaram a petição para impedir a alteração das palavras originais nas obras de língua portuguesa? Leia do que se trata e assine AQUI (compartilhe essa petição!)


8 de mai de 2014

estupro na Casa Branca

Na semana passada, a Casa Branca lançou uma campanha que pretende mudar a forma como os Estados Unidos enfrentam os abusos sexuais. No vídeo, pede-se aos homens do país que sejam parte da solução – palmas para a iniciativa, já que a maioria dos estupros é cometida por homens.

Finalmente uma campanha que foca no alvo certo: o estuprador. Já estava na hora de alguém de peso chamar atenção para o que é negligenciado: ensinar os estupradores a não estuprarem (em vez de ensinar vítimas a se protegerem) e dizer aos outros que devem tomar alguma atitude caso vejam um estupro acontecendo.

A mensagem do vídeo é clara e simples: todos tem responsabilidade. Não há exceções; não há desculpas. Para qualquer um fluente em inglês com o mínimo de capacidade cerebral, fica bem claro que não se está acusando todos os homens de serem estupradores e nem se excluindo os estupros masculinos. Mas...

Basta dar uma lida nos comentários do youtube para ver que iuzomismo não é exclusividade brasileira, nem a falta de conexões neurais. É tanto chorume, tanta ignorância sobre fatos, tanta mudança de assunto, tanta gente ofendidinha e tanta culpabilização das vítimas que não sei se choro, rio, vomito ou faço petição para que todos voltem às aulas de interpretação (e, quiça, às aulas de língua inglesa!).


 


Lá e aqui, o desconhecimento sobre o que é cultura do estupro e os mitos que rondam o assunto são bem semelhantes. Palmas para a globalização da ignorância! As pessoas conseguem acessar a internet para defecar comentários, mas não conseguem fazer o mesmo para pesquisar um pouco... (por sinal, se discordar e/ou duvidar de algo que ler aqui, pesquise!)

Por lá, Margo Paine fez uma pesquisa com universitários, publicada em Body Wars, e os resultados mostraram que 30% estuprariam caso não houvesse consequências legais e 83% concordam com a frase "algumas mulheres parecem que estão pedindo para ser estupradas". Quando ela substituiu a palavra estupro por "sexo forçado" (que são sinônimos), 54% disseram que "forçariam sexo".

Por aqui, a pesquisa publicada pelo IPEA no fim de março mostrou que 58% dos brasileiros acreditam que menos estupros aconteceriam se as mulheres “soubessem se comportar” e 26% acreditam que mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas. Pelo que já li em outras pesquisas, observo no dia a dia e já ouvi de outras mulheres, eu diria que estes números estão subestimados.

Toda mulher conhece alguém que já sofreu estupro ou tentativa de. Sabe aquele monstro que ataca nas sombras e nos becos, ou o doente mental, ou o psicopata? Mito. A maioria dos estupros é cometida por conhecidos da vítima. E estupro, lá como cá, é absolvido, normalizado, tolerado e até mesmo incentivado pela sociedade.

“Que roupa ela usava?", "onde estava?", "estava sozinha?”, “foi na casa dele?”... essas e outras perguntas retiram a responsabilidade do culpado e a transferem para a vítima. O que as mulheres encontram quando denunciam é toda uma apatia e um despreparo do Estado para lidar com vítimas dessa violência, agravada pela culpabilização da vítima contida nas tais perguntas.


7 de mai de 2014

linchamentos e responsabilidades

Uma mulher foi espancada após boatos em rede social e morreu. Parece uma caça às bruxas da Idade Média, mas é Brasil em 2014. De acordo com o boato da internet, ela teria sequestrado crianças e praticado bruxaria. Familiares, mídia e conhecidos da vítima tem dito que ela não era agressiva, lia a Bíblia, tinha transtorno bipolar e, além disso, não há provas de que ela tenha praticado algum crime – muito da discussão tem sido sobre quem é Fabiane.

Importa discutir quem ela era? Linchamentos são justificáveis se a vítima não tiver reputação ilibada? Supondo que ela fosse uma bruxa que mata criancinhas, uma turba ensandecida teria o direito de linchá-la? Linchadores tem autorização para fazer justiça com as próprias mãos desde quando? São criminosos, independentemente de quem for a vítima.

Justiçamentos, linchamentos e similares não podem ser justificados sob hipótese alguma, seja a vítima inocente ou não. Mesmo que houvesse pena de morte no Brasil – e não há – o responsável pela sua aplicação seria o Estado. O responsável pela aplicação da justiça é o Estado. Qualquer coisa diferente disso é voltar ao estado de natureza de Hobbes.

Antes de entoarem mantras como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos só defendem bandidos”, lembrem-se que qualquer um pode ser vítima desses justiçamentos. Ademais, tenham um pouco mais de responsabilidade no uso de redes sociais e pesquisem antes de acreditar em qualquer coisa. Sugiro que conjuguem sempre os verbos questionar e pensar, sobre qualquer assunto, inclusive sobre si mesmos.

Dizer a verdade, para muita gente, é ficção. A verdade, para muita gente, soa como ficção. Ao mesmo tempo, inúmeras ficções apresentam-se como verdadeiras. Antes de falar mal de algo ou alguém (on e offline), por exemplo, pense no todo que aquele algo ou alguém representa. Antes de apoiar, também. Esse maniqueísmo de bem e mal deveria ser colocado em desuso. A falta dele, que é não ter posicionamento crítico algum, também.

6 de mai de 2014

as vacinas e os imbecis

Vacinas são geralmente produzidas a partir de bactérias ou vírus (ou partes deles) mortos ou enfraquecidos, ou ainda de toxinas. Ao inserir no organismo esse tipo de substâncias, o corpo combate o agente estimulando a síntese de anticorpos, além de desenvolver a chamada memória imunológica, tornando mais fácil o reconhecimento do agente patogênico em futuras infecções e aumentando a eficiência do sistema imune em combatê-lo.

Atualmente, existem vacinas para diversas doenças (gripe, malária, poliomielite, febre amarela, rubéola, hepatite, hpv, tétano, etc) e até mesmo contra determinados tipos de alergias. As campanhas de vacinação conseguiram controlar e erradicar doenças... mas... epidemias de doenças que achávamos coisa do passado tem aparecido por aí.

Devemos muito desse reaparecimento a movimentos antivacina. É saudável questionar a ciência e a medicina em vez de acreditar cegamente em qualquer coisa, mas deixar de vacinar contra algumas doenças é muita vontade de retroceder. Sinceramente, esses movimentos antivacina são a prova de que a humanidade ainda será extinta pela burrice!

Já é demonstração de estupidez acreditar no criacionismo e condenar o evolucionismo – afinal, faz muito sentido acreditar na Bíblia e desacreditar na biologia. Deixar de vacinar por crenças infundadas e ideologias toscas sem comprovação beira à irresponsabilidade e, para piorar, não coloca em risco somente a pessoa não vacinada... em tempos de globalização, doenças se espalham com a velocidade de um clique. Não vacinar ali pode significar uma epidemia acolá.

Parabéns para os idiotas. Parabéns mesmo. Não bastassem os governos ao redor do mundo não investirem corretamente na prevenção de doenças, ainda ganham o reforço da crença de imbecis.


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