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8 de mai de 2014

estupro na Casa Branca

Na semana passada, a Casa Branca lançou uma campanha que pretende mudar a forma como os Estados Unidos enfrentam os abusos sexuais. No vídeo, pede-se aos homens do país que sejam parte da solução – palmas para a iniciativa, já que a maioria dos estupros é cometida por homens.

Finalmente uma campanha que foca no alvo certo: o estuprador. Já estava na hora de alguém de peso chamar atenção para o que é negligenciado: ensinar os estupradores a não estuprarem (em vez de ensinar vítimas a se protegerem) e dizer aos outros que devem tomar alguma atitude caso vejam um estupro acontecendo.

A mensagem do vídeo é clara e simples: todos tem responsabilidade. Não há exceções; não há desculpas. Para qualquer um fluente em inglês com o mínimo de capacidade cerebral, fica bem claro que não se está acusando todos os homens de serem estupradores e nem se excluindo os estupros masculinos. Mas...

Basta dar uma lida nos comentários do youtube para ver que iuzomismo não é exclusividade brasileira, nem a falta de conexões neurais. É tanto chorume, tanta ignorância sobre fatos, tanta mudança de assunto, tanta gente ofendidinha e tanta culpabilização das vítimas que não sei se choro, rio, vomito ou faço petição para que todos voltem às aulas de interpretação (e, quiça, às aulas de língua inglesa!).


 


Lá e aqui, o desconhecimento sobre o que é cultura do estupro e os mitos que rondam o assunto são bem semelhantes. Palmas para a globalização da ignorância! As pessoas conseguem acessar a internet para defecar comentários, mas não conseguem fazer o mesmo para pesquisar um pouco... (por sinal, se discordar e/ou duvidar de algo que ler aqui, pesquise!)

Por lá, Margo Paine fez uma pesquisa com universitários, publicada em Body Wars, e os resultados mostraram que 30% estuprariam caso não houvesse consequências legais e 83% concordam com a frase "algumas mulheres parecem que estão pedindo para ser estupradas". Quando ela substituiu a palavra estupro por "sexo forçado" (que são sinônimos), 54% disseram que "forçariam sexo".

Por aqui, a pesquisa publicada pelo IPEA no fim de março mostrou que 58% dos brasileiros acreditam que menos estupros aconteceriam se as mulheres “soubessem se comportar” e 26% acreditam que mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas. Pelo que já li em outras pesquisas, observo no dia a dia e já ouvi de outras mulheres, eu diria que estes números estão subestimados.

Toda mulher conhece alguém que já sofreu estupro ou tentativa de. Sabe aquele monstro que ataca nas sombras e nos becos, ou o doente mental, ou o psicopata? Mito. A maioria dos estupros é cometida por conhecidos da vítima. E estupro, lá como cá, é absolvido, normalizado, tolerado e até mesmo incentivado pela sociedade.

“Que roupa ela usava?", "onde estava?", "estava sozinha?”, “foi na casa dele?”... essas e outras perguntas retiram a responsabilidade do culpado e a transferem para a vítima. O que as mulheres encontram quando denunciam é toda uma apatia e um despreparo do Estado para lidar com vítimas dessa violência, agravada pela culpabilização da vítima contida nas tais perguntas.