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17 de mai de 2014

gatos e simulacros

Odeio mostrar minhas fragilidades – as verdadeiras, não seus simulacros – para as pessoas em geral. Receio. Esses simulacros da realidade que todos construímos é sempre, em maior ou menor grau, um escudo. Realisticamente falando, só não tem medo de se machucar quem nunca sentiu um punhal atravessando o peito, quem nunca sentiu falta de ar e de chão.

Gato escaldado tem medo de água quente... e, às vezes, a vontade de entrar na água é maior do que o medo de se escaldar. É quando as fragilidades são mostradas. Dificilmente deixa de haver aquele conflito inicial, como um gato colocando a patinha na água e retirando rapidamente, assustado e querendo pisar logo n’água (ou em qualquer outro lugar – eles são mestres nisso, até para ensaiar um salto de um lugar novo... são cautelosos e curiosos...).

Arredios no início. Observadores. Experimentam assim mesmo. Confiam em poucas pessoas. Preocupam-se com menos ainda. Geralmente, sentem como as pessoas estão e, dificilmente, aproximam-se com a única finalidade de animar alguém – quando o fazem, estão cativados. Não são mais aquele animal indomável traiçoeiro do senso comum.

Sim, gatos são indomáveis. Só fazem o que é de seu interesse mesmo. Porém, quando se entregam, estão entregues e jamais se virarão contra. A relação, para eles, não inclui controle: é troca. E se acharem que não estão recebendo o tratamento recíproco, se afastam, até fogem... Não há nada de traiçoeiro neles – ao contrário, são leais e preferem a solidão à traição.

Um gato não vai adular seu dono apenas para agradá-lo ou receber algo em troca – para ele, sequer existe um dono e a adulação, quando acontece, é real, doada. Não adianta querer adestrá-lo – ele só doa o que quer doar, só faz o que quer fazer, só se apega a quem quer... e só mostra esse apego quando perde o medo. Aí o simulacro dá lugar à vulnerabilidade...