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7 de mai de 2014

linchamentos e responsabilidades

Uma mulher foi espancada após boatos em rede social e morreu. Parece uma caça às bruxas da Idade Média, mas é Brasil em 2014. De acordo com o boato da internet, ela teria sequestrado crianças e praticado bruxaria. Familiares, mídia e conhecidos da vítima tem dito que ela não era agressiva, lia a Bíblia, tinha transtorno bipolar e, além disso, não há provas de que ela tenha praticado algum crime – muito da discussão tem sido sobre quem é Fabiane.

Importa discutir quem ela era? Linchamentos são justificáveis se a vítima não tiver reputação ilibada? Supondo que ela fosse uma bruxa que mata criancinhas, uma turba ensandecida teria o direito de linchá-la? Linchadores tem autorização para fazer justiça com as próprias mãos desde quando? São criminosos, independentemente de quem for a vítima.

Justiçamentos, linchamentos e similares não podem ser justificados sob hipótese alguma, seja a vítima inocente ou não. Mesmo que houvesse pena de morte no Brasil – e não há – o responsável pela sua aplicação seria o Estado. O responsável pela aplicação da justiça é o Estado. Qualquer coisa diferente disso é voltar ao estado de natureza de Hobbes.

Antes de entoarem mantras como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos só defendem bandidos”, lembrem-se que qualquer um pode ser vítima desses justiçamentos. Ademais, tenham um pouco mais de responsabilidade no uso de redes sociais e pesquisem antes de acreditar em qualquer coisa. Sugiro que conjuguem sempre os verbos questionar e pensar, sobre qualquer assunto, inclusive sobre si mesmos.

Dizer a verdade, para muita gente, é ficção. A verdade, para muita gente, soa como ficção. Ao mesmo tempo, inúmeras ficções apresentam-se como verdadeiras. Antes de falar mal de algo ou alguém (on e offline), por exemplo, pense no todo que aquele algo ou alguém representa. Antes de apoiar, também. Esse maniqueísmo de bem e mal deveria ser colocado em desuso. A falta dele, que é não ter posicionamento crítico algum, também.