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9 de mai de 2014

Machado se revira no túmulo

Basta qualquer busca rápida no Google para achar reportagens e pesquisas que mostram sempre o mesmo: Brasil ocupa últimas posições em ranking internacional de educação. Faça o teste. Procure também sobre analfabetismo funcional. Os resultados são sempre vergonhosos. Nossa educação não vai mal, vai péssima mesmo. Talvez tenha vindo daí meu espanto quando soube que o Ministério da Cultura está patrocinando o assassinato de clássicos da literatura brasileira.

Minha dor veio da notícia de que uma escritora muda obra de Machado de Assis para facilitar a leitura. Ela decidiu reescrever clássicos da literatura brasileira já que, segundo ela, os estudantes se desinteressam de alguns livros porque certas palavras são difíceis. Vai, então, reescrevê-los. A primeira vítima é “O Alienista”, de Machado de Assis, a história do médico de loucos que terminou, ele próprio, no hospício.

Impressão minha ou a educação no país é que virou coisa de loucos e está no manicômio? Literatura não é só o que se diz: é, também, como se diz. E não seria uma das funções da escola ampliar o vocabulário dos estudantes? Além de ajudá-los a conhecer as particularidades de estilo dos autores? Se fosse português arcaico vá lá, adapte-se para o atual... mas não é o caso.

O que me dói mais nessa violência cultural é que Machado é justamente meu escritor brasileiro favorito. E o problema em Machado não é a língua: os textos são até simples no que diz respeito ao vocabulário. Seu diferencial é outro e está no estilo do autor. A questão é ele ser dado aos estudantes sem que estejam maduros para entendê-lo e apreciá-lo – e com esse pacto de mediocridade na educação, jamais estarão.

Tenho o hábito de fazer velhas e novas leituras (ou re-leituras... pois cada vez que releio um livro, ele se mostra diferente – ou eu o assimilo de outra forma, talvez). Exemplo disso é Machado de Assis. Não gostei quando me foi apresentado. Tive que reler, anos mais tarde, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro. Descobri outros romances, além de contos e crônicas do autor. Acho que jamais serei capaz de compreender plenamente a complexidade presente em suas obras... Não deixo de me surpreender a cada re-leitura.

Machado, assim como tantos outros, nos é apresentado de sopetão, na adolescência. Sem a interdisciplinaridade e a maturidade que suas obras pedem. Perdem, dessa forma, em atratividade. Acho que todo o sistema educacional está estruturado para que as pessoas não desenvolvam suas habilidades, não se interessem sequer pela prática de atividades físicas (há coisa mais enfadonha do que aula de educação física no colégio?...).

Precisamos repensar o próprio ensino de literatura. Esse sistema de ensino (des)educacional espera o que de obras clássicas? Que estudantes saibam apenas a trama, o básico da história, para passar no Enem e no vestibular? A experiência da leitura não se reduz a isso e, se for apenas para conhecer a história, é melhor nem obrigá-los a ler. 

Jeitinho brasileiro é isso: em vez de melhorarem e reformularem aspectos da educação para que os estudantes tenham condições de ler e apreciar um clássico pelo que ele é e representa, cometem-se assassinatos de obras. Parabéns a todos os envolvidos e aos que aplaudem esse tipo de coisa.


Leitura complementar: Os clássicos às machadadas


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