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20 de mai de 2014

mulheres pós Idade Média

Por incrível que pareça, no período renascentista a posição da mulher sofreu um retrocesso. No feudalismo, seu espaço de atuação política era maior, já que a política se realizava a nível comunal. A formação dos Estados Nacionais e o processo de centralização do poder caminham de mãos dadas com o maior afastamento da mulher da esfera pública. Além disso, a reintrodução da legislação romana implicou uma redução dos direitos civis da mulher. Surgem restrições ao seu direito de adquirir bens por herança, reger seus próprios bens e representar-se na justiça.

Se durante a Idade Média a mulher atuou em praticamente todas as profissões, a partir do Renascimento determinadas atividades tornam-se gradativamente domínio masculino e as Corporações de Ofício se fecham à participação feminina. É durante este período, quando o trabalho se valoriza como instrumento de transformação do mundo, que o trabalho feminino passa a ser depreciado. Afastada de determinadas profissões, também se constrói uma ideologia de desvalorização da mulher trabalhadora.

Neste contexto, as mulheres não deixaram de trabalhar, já que as necessidades materiais e de sobrevivência sempre exigiram que o fizessem. A desvalorização do trabalho feminino, traduzida concretamente na atribuição de menor pagamento à mão de obra feminina, encontra sua lógica no processo de acumulação de capital, no qual a super exploração do trabalho da mulher (e do menor) cumpre função específica.

Não houve um afastamento da mulher da esfera de trabalho; sim formas próprias de sua inclusão. Ela é totalmente afastada de determinadas atividades, como a fabricação de cerveja e de velas, a serralheria e a fundição. Mesmo com presença significativa em determinados ramos de produção, como a indústria da seda e têxtil em geral, desempenha as atividades menos qualificadas e de menor remuneração.

Diante de tais empecilhos, a participação feminina no mercado de trabalho adquire peculiaridades. A partir do século XVII e, sobretudo, no século XVIII, contingentes cada vez maiores de mulheres passam a realizar trabalhos a domicílio, contratadas por intermediários. Atualmente, este tipo de trabalho ainda é largamente exercido pela mão de obra feminina, particularmente na indústria de confecção e em atividades domésticas.

Junto com a valorização do trabalho ocorrida neste período, cresce o respeito pela ciência e a preocupação com a aquisição do conhecimento. E, enquanto a instrução masculina se desenvolve em vários níveis, a educação feminina retrocede tanto na preparação profissional, quanto na formação intelectual. Não há registros de mulheres freqüentando universidades até meados do século XIX! Desaparecem médicas, cirurgiãs, advogadas. A obstetrícia, como um ramo do conhecimento científico ao qual só os homens tinham acesso, retira das mulheres o monopólio da profissão de parteira.

O ensino público e privado se expande na Europa e, ao mesmo tempo, a defasagem entre o número de escolas masculinas e femininas é imensa (em 1790, na Diocese de Rouen, por exemplo, a relação entre escolas para meninos e para meninas é de 4 por 1). Esta defasagem se dá em termos quantitativos e, também, no que se refere à qualidade do ensino. O currículo das meninas enfatizava o aprendizado das prendas domésticas e sua escolarização não as preparava para o ensino superior, que, aliás, sequer lhes era acessível.

É de se estranhar que as primeiras vozes de contestação feminina registradas pela história moderna se dirijam contra a desigualdade sexual no acesso à educação e ao trabalho? É de se estranhar qual a posição da mulher ainda hoje, no século XXI? Um pouco de história, além de não fazer mal, ajuda a compreender muito do que é o presente viu.


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