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12 de mai de 2014

Ney e os militontos

Pouco mais de duas semanas depois do grande piadista negar o mensalão e exaltar as conquistas da Terra Encantada em uma entrevista à TV portuguesa, Ney Matogrosso escancarou, durante um programa no mesmo canal, algumas verdades do Brasil real. Ao ouvir a pergunta “Como está o Brasil?”, Ney começa respondendo com “Existe um enorme desconforto” e continua: “O governo brasileiro está gastando bilhões de reais para fazer estádios, enquanto nos hospitais públicos as pessoas estão sendo jogadas no chão, em cima de um paninho”.

Ney falou sobre educação, transporte público, Bolsa Família e corrupção antes de fazer a pergunta que deveria ser feita por todos: “Se existia tanto dinheiro disponível para gastar na Copa, por que não resolver os problemas do nosso país?”.


 


Foi o bastante para destilarem todo tipo de ignorância, incluindo homofobia, contra Ney. Motivo: ele ousou criticar o Sagrado Partido. Cadê o espanto? Basta criticar a política de distribuição de renda do governo PT para ser demonizado. O Bolsa Família foi colocado em um pedestal e qualquer um que faz uma crítica ao programa, fundamentada ou não, é transformado em um ser desprezível merecedor de todo o ódio – e esse pedestal é usado como escudo a qualquer crítica às inúmeras cagadas do governo.

Apesar de seus erros, o Bolsa Família ainda é necessário. Ney, ao falar sobre o programa, demonstrou desconhecimento e repetiu o senso comum – como pessoa pública, não precisava ter sido tão ignorante. Isso, entretanto, não invalida o resto de sua fala e a entrevista foi, em geral, positiva. É mentira que o Brasil não está a maravilha divulgada pelo PT? É mentira que esse negócio de todos terem virado classe média é uma falácia? É mentira o fascismo da polícia? É ruim um artista desse porte falar sobre essas coisas e ainda lembrar um caso emblemático, como Amarildo?

Quando os militontos entenderão que criticar o PT não significa apoiar o PSDB (e vice-versa)? Esse maniqueísmo cego é demência viu...




“(...)Tudo nesse governo é capitalista. Não há nenhuma política de esquerda em que possamos usar aquele atenuante “ah, o governo tem problemas, mas tirou 30 milhões de pessoas da miséria…“. Sério? Mesmo? Quando um governo gerencia um Estado privilegiando sempre os mais ricos, até mesmo na “política” de Direitos Humanos, ele produz miséria ao invés de combatê-la. Ao produzir miséria e miseráveis e usar o braço armado desse Estado contra qualquer oprimido que tente se rebelar/protestar, ter uma única política que tira pessoas da miséria e depois as joga na selva do capitalismo não é tirar pessoas da miséria, mas uma política social-democrata de redução de danos que no final das contas atrela essas pessoas ao voto de gratidão nesse governo. Isso é a velha política clientelista dos coronéis de outrora maquiada de “política social de distribuição de renda”. Tanto assim que os índices de desigualdade social permanecem os mesmos. Tirou pessoas da miséria? Sim, mas mantém a política que produz a miséria e os miseráveis.
O fato é que transformar miseráveis em consumidores não os transforma automaticamente em cidadãos. (...) Observar e evidenciar isso não é mérito nenhum além de não ser cego.”