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20 de jun de 2014

Sobre objetos (metáforas)

É claro que todos amamos ser objetificados. Por fãs, por pessoas aleatórias, pela pessoa que amamos, por quem sentimos tesão. Amamos que alguém – ou todas as opções – nos objetifique. Não deixamos, entretanto, de ser sujeitos e agentes da nossa objetificação (consentida!).

Me dá um tesão louco ver a pessoa na qual tenho tesão com tesão. Entende? Só um exemplo. E tenho nojo, verdadeiro asco, de demonstrações de estar com tesão vindas de gente aleatória, desconhecida. Adoro ser chamada de puta – e odeio que me chamem de puta. O que há entre as situações não é uma grande diferença: é um abismo mesmo o que as separa.

Não enxerga (ou acha mais cômodo não enxergar) esse abismo? Colega, se jogue no abismo – faça esse favor ao mundo. E as crianças mimadas, embora adultas, que não sabem lidar com nãos, com não estou interessada? Partem para violência, ou chantagens emocionais, ou vitimismo, ou xingamentos, ou desmoralização, ou “insistência’’ (ou uma combinação delas). Previsibilidade chata essa hein.

Medo de olhar para o abismo? Been there, done that. Not anymore. Já tive medo. Já olhei. Já me joguei sem para quedas. Já escalei de volta. Sento em sua beirada e conversamos. E você? Um dos meus hábitos estranhos é, enquanto consulto o Houaiss (por alguma dúvida de ortografia), olhar palavras novas (e G-ZUIZ! A quantidade de palavras na minha língua nativa que não sei o significado é incontável...).

Eis que agora procurava pelo para quedas (uso do hífen, bláblábla... por que procuro, se optarei pelo que eu achar melhor?). Me deparei com o adjetivo parafrênico – referente a parafrenia. What the fuck is parafrenia? Pesquisar.

substantivo feminino
Rubrica: psiquiatria. Diacronismo: obsoleto.
designação genérica de um conjunto de problemas mentais que inclui a demência precoce e a paranóia.

Estou paranóica, ou o Houaiss acaba de me enviar uma mensagem subliminar? Ou estaria o país tomado por uma demência coletiva em relação à Copa e às Eleições? Ou eu estou completamente paranóica quanto à existência de tal demência (coletiva e individual)? Foda-se. Falávamos de objetos – fugi do assunto, mas eram os objetos da Copa


O pessoal que está reclamando da objetificação dos jogadores deveria dar uma olhada, atentamente, nos sites de notícias, celebridades, esportes... Tudo relacionado à Copa. Musas da torcida. Torcedoras (insira aqui uma nacionalidade) gatas. Ex-affair de (insira aqui jogador). Affair/namorada/noiva/esposa de (insira aqui jogador). Marias chuteiras. Bandeirinha. Repórter. (sempre com foco nos “atributos físicos”).

Compare a quantidade disso aí do parágrafo anterior, com a quantidade de publicações objetificando os jogadores (ou chamando-os de comedor, bem dotado, forte... que tipo de depreciação aparece, ou se aparece?). Em uma competição masculina... a objetificação maior continua sendo a feminina. A depreciação, também. Apenas uma projeção da realidade? Um recorte do tema estudado, para teorizar sobre o todo? Os objetos da Copa são apenas um recorte, uma representação, dos objetos da realidade: mulheres, mostly.


Objetificação... Consentida? Nem sempre. Avaliem antes de serem cúmplices. Durante e depois da Copa. No todo e nas partes. Sem mimimi. Sem relativizações, justificativas e todo esse blábláblá decorado do senso comum que sofre de demência coletiva. Ou assumam-se ruminantes e parem de dizer que vieram do macaco (aliás, tadinho do macaco que tem um ancestral em comum conosco...).

Partiu olhar qual a nossa parte na profundidade deste(s) abismo(s), antes de creditar-lhe(s) a outrem ou a alguma entidade superior? Individual e coletivamente – em diversos assuntos e temas.

That’s all folks. Chega dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa.





NOTA: No dia 16 de junho, houve o começo involuntário de uma nova série – com número indefinido de textos. Dessa vez, o assunto é futebol (sem, necessariamente, estar falando sobre futebol). São as metáforas do dia proporcionadas pela Copa – acabarão junto com a Copa (ou antes...). Sem pretensão de escrever os melhores textos sobre a Copa - são apenas os meus textos sobre a Copa. O primeiro foi ESSE.


6 de jun de 2014

o que é família?

Preconceito e fanatismo são duas coisas que cegam tanto, mas tanto... que as pessoas desligam o tico e o teco e viram jegues, quadrúpedes ruminantes que nem se dão ao trabalho de pensar um pouquinho. Exemplo disso é a enquete da Câmara sobre o conceito de núcleo familiar.

Quase 62% dos votantes concordam com a definição de família como núcleo formado a partir da união entre homem e mulher, prevista no projeto que cria o Estatuto da Família. Quero crer que essa maioria seja somente ignorante, mas a realidade me diz que votaram assim por serem contra as famílias formadas por dois pais ou duas mães (homofobia pura e simples!). A cegueira, preconceituosa e fanática, que odeia homossexuais, faz essa maioria excluir todas as outras possibilidades... Chega a ser surreal.

O pior é que ignoram o óbvio: todas as outras famílias que não se enquadram no padrão “união entre homem e mulher” são excluídas – mas deveriam ser amparadas pelo tal estatuto caso algum dia ele venha a existir. Estamos em 2014 D.C. e as pessoas continuam dando passos rumo à Idade Média? É isso mesmo produção?

Não entrarei no mérito das famílias homoafetivas, apesar de claramente ser este o motivo principal que levou a maioria a votar dessa forma. Não concordo com essa definição. “União entre homem e mulher”? Façam-me o favor! Esse conceito débil e arcaico de família exclui muito mais do que os homossexuais. Tenho amigos e familiares que estão criando seus filhos sozinhos. Mãe solteira (ou pai solteiro) e seus filhos não são famílias? Mãe e filho não formam uma família? Pais que se divorciaram e estão fazendo de tudo para manter uma vida funcional e aprazível para eles e seus filhos não são uma família? A avó, tia ou qualquer parente que está criando o filho de um familiar falecido... não é família?


Família é tão mais do que a união entre homem e mulher... Uma pena que o preconceito e o fanatismo de muitos os impeça de enxergar coisas óbvias.


3 de jun de 2014

o aborto e a revogação da portaria 415

Mentiras foram tão espalhadas pelos “pró-vida”, que o governo voltou atrás e revogou a portaria que regulamentava o atendimento aos casos de aborto (já previstos em lei!) pelo SUS. É minha gente, o aborto NÃO foi liberado no Brasil nem por esta agora falecida portaria e nem por nenhuma outra – alegar isso é, no mínimo, um misto de má fé com ignorância.

Mentiras a parte, encaremos os fatos. A ilegalidade não impede a prática do aborto, só a torna menos segura e mata mais mulheres. Gente da classe alta simplesmente paga o aborto quando precisa e quem mais morre, nesta equação, são as mulheres pobres. E, apenas para ficar no caso de país vizinho, em 6 meses de legalização o Uruguai não registrou mortes de mulheres por aborto e é um dos países com taxas de aborto mais baixas do mundo.

A política pública do governo uruguaio tem o objetivo de diminuir a prática de abortos voluntários a partir da descriminalização, da educação sexual e reprodutiva, do planejamento familiar e uso de métodos anticoncepcionais, assim como serviços de atendimento integral de saúde sexual e reprodutiva. Dá para entender que isso é bem diferente de colocar o aborto como um método contraceptivo e banalizá-lo?

Não falem absurdos como “engravidou porque quis”... A saúde no Brasil é tão boa assim que todas tem acesso a atendimento médico adequado, contracepção segura, educação sexual e reprodutiva? Por acaso o SUS (e a saúde nacional em geral) é uma ilha de excelência apenas nesse aspecto? Saiam da Torre de Marfim pelo amor dos deuses... A realidade passa longe disso!

SE houvesse uma estrutura na qual todas as mulheres DE FATO tivessem acesso à educação sexual e reprodutiva, exames, métodos contraceptivos adequados... e SE, associado a isso, houvesse uma estrutura na qual tivessem acesso a atendimento psicológico no caso de uma gravidez indesejada... e SE, associado a isso, houvesse uma estrutura na qual tivessem acesso ao aborto seguro... Gravidezes indesejadas seriam impedidas, mortes de mulheres seriam impedidas e abortos seriam impedidos. Mas é difícil pro fundamentalismo enxergar e entender isso né...

Minha posição, pessoal e intransferível, pode ser encontrada aí na barra lateral (basta clicar na tag aborto). Deixo alguns links com textos sobre a revogação dessa portaria e sobre o assunto para quem se interessa pelo tema: