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9 de jun de 2014

Colérica (pequenas crônicas)

Então eu estava de cama. Que bom que posso ficar de cama! Comemoro ficar acamada sem precisar dar satisfações a ninguém. Desnecessário fingir que “está tudo bem” quando a vontade é se entupir de ibuprofeno e deitar em posição fetal no escuro... Com sorte, ter uma queda de pressão por causa do medicamento e adormecer ali.

Minha pressão sempre cai com esse remédio e é um alívio não precisar me manter de pé, tentando não ceder, me enchendo de café e açúcar para não desmaiar. Bom humor de mentira – e é claro que todos percebem a mentira. Sorriso cinza, amarelado, desbotado. A produtividade tem uma queda maior do que a pressão...

Posição fetal, no escuro. Adormecer com medicamentos. Acordar como se tudo não tivesse passado de um pesadelo. Uma navalha, cega, raspando as paredes do útero. Não sei qual outro órgão daria essa mesma sensação, se raspado por dentro, por uma navalha cega... os tentáculos da dor atingem, por dentro, pernas, lombar... Do umbigo para baixo, tudo dói... e a dor vem por dentro, desse centro irradiador. Uma ‘Hiroshima&Nagasaki’ particular, interna.

Uma vez por mês. Doze vezes por ano. É a quantidade de dias nos quais eu gostaria de arrancar um órgão específico do meu corpo, apenas para nunca mais precisar passar por isso. Desde os 11 anos de idade. Desumano isso! Tortura. Irônico que seja o útero a me causar tamanho flagelo.




Estava assim, deitada no escuro, quando ele deitou ao lado e perguntou qual era a sensação. Tentei descrever com palavras. Acredito que minha cara de doente terminal explicou melhor. Em vez da bolsa de água quente, um abraço quentinho, aconchegante. Sonhei com um hambúrguer.

Acordei horas depois, sem dor. Com fome. “Vamos tirar uma ‘selfie’ pós-sexo?”. Hahahaha. Ainda fica chateado porque comecei a rir, sem pausa, até engasgar com as gargalhadas? “Era pra você ficar indignada e me xingar...”. “Vem cá que te mostro minha indignação”. Uma coisa leva à outra... e saímos para comer um hambúrguer.

Aquele artesanal, delicioso, que não tem o ‘gourmet’ no nome e não custa uma fortuna. Acompanhado de batatas de verdade. Por um burguer cotidiano define – mas não dá ideia do prazer que o paladar sente ao comer... degustar. Tipo meu estado... a cara define, mas não dá idéia da dor, da vontade de arrancar o útero para se livrar daquilo.

Tato, olfato, audição e paladar se unem depois – um pouco desordenados, mas harmônicos, como o jazz. Um pouco sinfônicos; inspirados, por vezes em Wagner, por vezes em Debussy. De repente... caóticos? Algo que soe como ‘The Great Gig in The Sky’?... Jamais lineares, porém. O engraçado é que a cólica, as sensações que ela provoca, são assim também. A única linearidade entre todas elas é a presença da dor.


E assim, após quase causar um incêndio, inicio esse pequeno projeto de Pequenas Crônicas do Cotidiano do Amor (ou Pequenas Crônicas Cotidiano-Amorosas?). Quem nunca, não é mesmo? É lícito. "Não se apaixonarás” é inviável – quem nunca? Pequenas Crônicas esta semana, para quem ama e para quem odeia o Dia dos Namorados. Que a (des)ilusão esteja convosco, pois ela está entre nós. Sem maniqueísmos. De segunda à sexta – fim.


To be continued...