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13 de jun de 2014

Hoje (pequenas crônicas)

Nada de ira. Raiva, se existir alguma, só de mim. É algo mais próximo de tristeza sem, no entanto, ser triste. Desapontamento. Decepção. Descrença. Com a própria estupidez. Com o dejavù. Com o outro. Quase chorei. As lágrimas paravam no momento em que iam escorrer. O olho afogava-se, para em seguida dar lugar a uma inspiração profunda, a uma expiração lenta e cansada. Por vezes, ofegante.

Vontade genuína de cometer um homicídio. Isso desmontaria mais a vítima, do que dar-lhe um abraço apertado de saudades? Sinceramente, não sei. Também tenho vontade genuína disso. E de encher-lhe de beijos. Castrá-lo, enquanto lhe faço aquela oralidade sem palavras. Distrair-me com seu cheiro frustraria meus planos – apenas isso. Tento manter a aparência de calma, carente... Evito brigas à distância... De perto, distraio-me.

Tolo. O narcótico não é o falo. É aquele invisível campo de força magnético, embora superficial, que envolve a pele. É o efeito do olfato. É a saliva. A proximidade física é um fator agravante sobre vontades. A obviedade, o como se sobrepõe, é algo patética. Inocente. Pueril. Instintiva. Manter a distância, nesses casos, pode vir a ser fatal.

And yet... Não é um sentimento físico. Esperava alguma história lógica? E quem lhe disse que o amor – ou a falta dele – é lógico? Às vezes, me sinto tão idiota... Em vez de tapa na minha cara, me olho no espelho e rio. Não sei bem o que eu esperava... mas não era nada daquilo. Inesperado. Se bom ou ruim, o tempo dirá.

O que eu esperava? Lide com a realidade, oras. Ela se localiza entre o sonho e o pesadelo. Não é nada daquilo, e é aquilo tudo. Tangível. Por vezes, (in)existente. Real para quem a vive. É essa efemeridade, esse aqui e agora, hoje, presente... que pode durar mais um dia ou mais um ano. Expectativas frustradas? Excedidas? Esgotadas.

Esgotamento... Do quê? Ainda quero engolir inteiro, embora não o faça. Quem nunca? Hoje, ontem, amanhã. Quem nunca? Medo do tamanho da felicidade e de sua complementar, a tristeza. São, ou não, inversamente proporcionais? Maior queda... Puff. Quem nunca? (Pensamentos aleatórios, apenas). Te lamber inteiro...

Ou não. Talvez devesse ser exposto na cozinha de Hannibal Lecter. Jantar romântico. Você, como prato principal. Me lambuzo. Sinto seu gozo escorrer, enquanto afio as facas. Desisto de usá-las. Esgotada. Um não sei o quê temperado com um gosto amargo, doce, envolvente. Senhoras e senhores, mais um ser humano vira motivo de piadas por culpa de um anjinho com complexo de Legolas.


É o que temos para hoje. Excruciante. Sinta como leveza ou como esmagamento. Andar sobre as águas ou nelas se afogar. Inconstantes amantes. Heróica – ou heroinísticamente? – falando... Uma droga cuja abstinência é excruciante. Cuja presença, por outro lado, atenua qualquer coisa... até a própria ausência. Vem cá, mal necessário... Seja qual for. Te mastigo inteiro. 




"Pega da vida tudo o que ela te der, seja o que for, sempre que te interesse e possa dar certo.
A tragédia é o mais ridículo que há e nada vale mais do que a risada.
Onde não puderes amar, não te demores"
Frida Khalo - 1907-1954



> Pequenas Crônicas começou AQUI. Esse que você acabou de ler é o quinto e último, de um total de cinco textos. Obra de ficção e portadora de figuras de linguagem – então stop the mimimi!


Not to be continued.