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26 de jun de 2014

Velha Copa (metáforas)

Era um domingo qualquer. Da Copa. Eu, empolgadíssima com Bélgica x Rússia. Tão animada que saí para caminhar, sentar embaixo de alguma árvore, fumar um cigarro. Cazuza era a trilha sonora. Nossa,“amo a pessoa que inventou o mp3!” – era meu pensamento enquanto escolhia a música no ipod.

Quantas fitas cassete eu deveria carregar apenas para ter a quantidade de cazuzas que tenho no ipod? Quantos cds? A diferença que isso faz em viagens de carro... Santo inventor do mp3, declaro amor eterno a ti! Ao inventor do vaso sanitário também (by the way, provavelmente a maior invenção da humanidade!). Pensamentos dominicais que não cessaram no dia seguinte. Nem podiam.

Quem nunca teve que rebobinar fitas (cassete ou vídeo)? Well... muita gente. O verbo rebobinar ainda existe? Não bastava ter jogo da seleção na minha cidade – tinha que ter visita de parentes distantes. Estranhamente, fui simpática com todos eles (de verdade). É... sinceridade. Duplo fio. Cuts both ways. Como minha prima estava envelhecida! Minha sobrinha, filha dela, uma mocinha já. Eu olhava no espelho e não via a minha idade? Ou ela não aparecia aos meus olhos?

Fato é que a sobrinha... Deuses, como está grande! Linda! Ela refletiu melhor do que qualquer espelho: estou velha. G-ZUIZ! E as postagens dos coleguinhas naquela rede social? Selfies e demais fotos felizes no estádio. Jogo da seleção, né. Vamos ostentar! Puff... Uns, pareciam de fato felizes. Sorria com eles. Outros, tão verdadeiros quanto bolsas de marca da feira dos importados (ou da 25 de março, as you wish) – desses, rio.

Os coleguinhas que me chamaram a atenção, entretanto, foram os (alguns) da época do colégio (1º e 2º graus para nós, velhacos que não fizemos ensino médio). Nas fotos-ostentação diretamente do estádio nacional. Acho que uns poucos da época caloura-universitária também – esses, mais raros. O que aconteceu com os(as) gatos(as) da época do colégio? (os alguns) Cadê a gatice/gostosura desse povo?

Falamos de alguns, apenas. Mas... se nem os escritores (e demais articulistas das palavras, seja em que meio for) geniais são lidos... e se, nem quando lidos, agradam a todos... Ofenda-se quem escolher, deliberadamente, se ofender. No dia seguinte, meu choque era pensar que a época do colégio foi há quantos anos?... É. Um uruguaio morde um italiano, xingo algo em italiano gesticulando e ... A primeira vez que estive por lá foi quando?... É. Velhaca. Fim.

And yet... Ainda “somos tão jovens”. Que clichê. Às vezes, sinto que somos mais idealistas do que as gerações mais novas. Alguns de nós, apenas. Não há país no mundo que eu ame mais do que o Brasil. Inexistente. Relação de amor e ódio. Queria, do fundo do coração, que nossa seleção perdesse – se não nas oitavas, nas quartas. Quero, não nego, respondo às acusações de reacismo quando eu me importar com elas.



Sim, futebol faz parte da cultura brasileira – assim como machismo, racismo, ‘jeitinho’, corrupção, homofobia, prostituição infantil, violência doméstica... e tantas outras coisas bacanas. Embora eu goste da festa e de ver pessoas em festa, prefiro que as pessoas fiquem em luto (talvez isso as leve a refletir, talvez uma derrota da seleção sirva como gatilho, talvez...). Precisamos de mudanças – e sabemos que uma vitória do Brasil seria certeza de manutenção do sagrado partido.

Não sei quem virá ou poderia vir. Já votei no PT por precisarmos de mudanças – mais tarde, recobrei a razão. Continuamos precisando de mudanças e, convenhamos, o PT não será o motor delas... (nem PSDB, Dudu/Marina, e tantos outros que estão por aí...). O Brasil ganhar a Copa significa manutenção automática do status quo... Que ele ao menos seja sacudido ou leve umas mordidas.

De pouquinho em pouquinho... Quem garante que o Dia D (de Demolição), um dia, não chega? Desacreditá-lo logo de cara é que não gera nem cócegas... (e me chamam de pessimista, apenas por torcer para qualquer um, menos o Brasil, ganhar essa Copa?). De qualquer forma, desconsidere tudo isso que foi dito – ou não. Alguns dias de Copa e uma velha rabugenta e ranzinza, apenas. 



That’s all folks. Chega dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa.




NOTA: No dia 16 de junho, houve o começo involuntário de uma nova série – com número indefinido de textos. Dessa vez, o assunto é futebol (sem, necessariamente, estar falando sobre futebol). São as metáforas do dia proporcionadas pela Copa – acabarão junto com a Copa (ou antes...). Sem pretensão de escrever os melhores textos sobre a Copa - são apenas os meus textos sobre a Copa. O primeiro foi ESSE.