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30 de jul de 2014

sobre peso

Por tudo que já li (e não me refiro a revistas de moda e dicas de celebridades) e por tudo que já ouvi (de médicos, nutricionistas, biólogos, educadores físicos, etc), não caio na armadilha de defender a obesidade como algo saudável. Sejamos honestos, sem hipocrisia: obesidade não é saudável a médio e a longo prazos (cadê estudos científicos que digam que sim?)... mas... diversos hábitos de pessoas não obesas também não são saudáveis e podem trazer problemas de saúde a médio e a longo prazos (ou não?). Portanto, me impressiona a que nível nojento chega a gordofobia que está impregnada na sociedade.

Ontem liguei a TV enquanto almoçava e descobri que gordos não servem para ser professores. Há gente sendo reprovada em perícia médica por causa do peso! Expectativas futuras de que a pessoa possa vir a ter algum problema de saúde são impedimento para assumir o cargo? Questiono: magros não podem vir a ter algum problema de saúde futuramente? Se ambos, magros e obesos, podem futuramente ter problemas de saúde, por qual motivo só um dos grupos é reprovado na perícia médica?

Juro, tive indigestão assistindo aquilo... Gritei mentalmente sozinha “Como assim?!!! Que absurdo é esse?!!!”. Perca peso e aí você pode ser um bom professor, é isso mesmo produção? Posso dizer que fiquei indignadíssima? Gordofobia institucional é too much para a minha cabeça... (e tenho nojo de uma coisa dessas #prontofalei) Enquanto isso, milhares de pessoas (especialmente mulheres) sofrem de problemas relacionados à auto imagem... E como não? A moda chama essa mulher da foto abaixo de plus size!!!!!


No outro lado da balança, temos a anorexia. “A sociedade ao longo dos tempos sempre procurou estabelecer padrões estéticos e comportamentais aos seus indivíduos. Estes padrões variam de cultura a cultura e vão se alterando, pressionando as pessoas a se adaptarem de maneira a serem aceitas. Atualmente, há uma divisão de padrões estéticos, entre o corpo malhado de grande massa muscular e a referência da moda, muito magra e alta. O bombardeiro da mídia com esses padrões esteticamente perfeitos tem reflexos como a venda desenfreada de suplementos e medicamentos emagrecedores, intervenções cirúrgicas e a prática de atividade física desordenada, entre outros. Nesse contexto, no qual impera uma ditadura estética, há um crescimento de distúrbios relacionados à alimentação e à imagem”.

Isso não é inocente – nada no que diz respeito a padrões estéticos e comportamentais é inocente. “Uma cultura focada na magreza feminina não revela uma obsessão com a beleza feminina. É uma obsessão sobre a obediência feminina. Fazer dietas é o sedativo político mais potente na história das mulheres; uma população passivamente insana pode ser controlada”, diz Naomi Wolf em O Mito da Beleza. Portanto, antes de aderir a dietas da moda ou não se aceitar, pense um pouco. Cuidar da saúde, se alimentar de forma mais saudável, não ser sedentário... tudo isto é ok e o corpo, nosso templo sagrado, agradece – mas a quem interessa toda essa obsessão pelo corpo perfeito? A quem interessa que haja tanto foco no corpo pela estética, não pela sua funcionalidade?


Deixo, por fim, um trecho do texto Mulheres Famintas: “A insatisfação das mulheres com suas medidas e com sua imagem é permanente, e um profundo sentimento de inadequação se estabelece em suas vidas fazendo com que se sintam sempre impossibilitadas de sentir-se bem com seus corpos e imaginando que jamais corresponderão a um ideal de beleza que não tem nada a ver com elas. Um tempo e uma energia sem fim são desperdiçados dedicados às dietas, medidas, roupas, dietética e cosmética.” E quem ganha com isso, definitivamente, não são as mulheres.


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Dica de Filme: Tem filhos ou pretende ter? Não tem filhos, mas acha ridículo proibir a publicidade voltada para crianças? Assista a esse documentário e tente parar para pensar e refletir só um pouquinho vai... Bem interessante, e levanta diversas questões que vão bem além do peso (inclusive aquela parte que ninguém quer admitir - a omissão parental - de delegar a educação e o cuidado com seus filhinhos à "babá tv/internet/videogame"...)

20 de jul de 2014

dia do amigo

Dizem que hoje é Dia do Amigo. E existe um dia específico para celebrar e relembrar amigos? Desnecessária essa data. Amigo é aquela pessoa de todos os dias e de dia nenhum. Explico. Ou não. Tempo e distância são coisas inexistentes nesse negócio chamado amizade que, ao contrário do que dizia o poeta, é um amor que morre sim.

Pessoas se afastam por inumeráveis motivos – quase todos ligados a mudanças. Muda-se de cidade, emprego, país, continente, estado civil, opinião, humor. Todas essas mudanças não são, per se, motivos para a morte. O que provoca a morte é a adição de ingredientes como falsidade, traição, insensibilidade, egoísmo... Quem nunca teve um amigo que morreu por algum desses temperos?

Aceita a morte que dói menos. Fique em luto se necessário. Não se pode mudar os outros, apenas nossas reações a eles. De repente, esse amor que nunca morre apenas definhou até morrer e ninguém percebeu – ou fingiram não perceber. Pouco importa. Perder tempo com isso é deixar de usar esse tempo com quem está vivo.

Já que dizem que hoje é dia do amigo, balance a árvore da amizade para que caiam as maças podres. E só. Não vale a pena perder tempo com elas. Melhor ganhar tempo com aquelas pessoas com quais se pode ser. Os vivos. Aqueles com quais se pode ser quem se é, com todos os defeitos e qualidades que isso implica. E isso não significa que os vivos sempre devem concordar com tudo ou passar a mão na cabeça – o nome disso não é amigo... amigo é outra coisa.

Amigo é aquela pessoa cujas imperfeições combinam com as nossas. Sintonia pura e simples, que tempo e distância não são capazes de apagar. Que queremos bem (e que nos querem bem) apesar de. 


13 de jul de 2014

A Final, afinal (metáforas)

Antes de tudo, um pequeno aviso, ou lembrete – fica à escolha de quem o receber. Não comemorem o final da Copa e não vociferem a decadência da seleção. Eleições vem aí! A baixaria e a humilhação nem começaram. Corre-se o risco – grande! – de daqui a pouco estarmos com saudades da Copa... Ai que saudades de quando as postagens nas redes sociais eram brigas, discussões, versões, torcidas, distorções, verdades, mentiras... etc... Que saudades de quando era tudo sobre futebol.

É amigos... nas vésperas da Final debates acalorados sobre cotas raciais eram cortados de edições de programas de TV (e com justificativas pífias – ah, vá... no lo creo...)... E essas prisões com a justificativa de prevenir ações que pudessem perturbar a ordem pública no dia da decisão? Sabe quem pode ser preso para prevenir possíveis ações? Todo mundo. Todos. Ou não podemos, todos, amanhã cometermos um crime? O que garante que, amanhã, a mais sã das pessoas não possa surtar e matar alguém? Oi?

A desonestidade, ela não tem limites. Saudades de quando a paixão cega era o futebol. Prevejo eu mesma dizendo isso daqui a alguns meses. Ou semana que vem. Na verdade, os parágrafos antecedentes entregam. A saudade, ela já começou a existir. De onde vem o interesse para que não haja nenhum debate verdadeiro? "Numa terra de fugitivos, aquele que anda em direção contrária parece estar fugindo"... É, T. S. Eliot talvez estivesse certo.


O que interessa é algo mais simples. É TETRAAAAA!!! E a Argentina hein... palmas para eles também. Caíram de pé. Dois times guerreiros até o fim. Festa alemã e bico, cara emburrada – vaias para vocês, Messi, Dilma. Cara de criança mimada que ficou sem doce. Fique feliz pelo coleguinha, ele se esforçou mais do que você. Aprenda com ele e cresça, ao invés de desejar a queda alheia ou ficar de bico. Levante-se.

TETRAAA!!! Já a vi ser campeã duas vezes. Torci muito em ambas. Em 90, a direitista wannabe que festejava a queda dos comunistas e que, curiosamente, se transformaria na esquerdista wannabe manifestante que ia para a rua pedir a queda do capital. Ficou a imagem do Bial ao vivo, apresentando a queda do Muro de Berlim. O festejo, o orgulho. Antes de entender intelectualmente, eu já entendia psicologicamente... Cresci ouvindo meus avós e suas histórias.



Quando entendi, intelectualmente, o que tudo aquilo significava... Nossa! Hoje, festejo e orgulho maiores ainda. E mais genuínos do que no Tri. Daquela época, ficou até hoje o arrepio que o show The Wall me provocou quando assisti... (se há um show no qual eu gostaria de ter estado presencialmente, é esse). O arrepio daquele campeonato, repetido. Dessa vez, eu não vestia a camisa da seleção e não torcia agressivamente. Tranqüilidade. A vitória era certa...

Coração tranqüilo. Agressões não ganham o jogo. Tão pouco só o trabalho bem feito. Fica claro que, em momentos de definições, quem ganha o jogo é o emocional. Ele, que não é nem só coração e nem só cérebro. Ele, que envolve racionalidade e resiliência absurdas. E, enquanto escrevo esse texto, brasileiros provocam argentinos e várias brigas entre rivais são registradas no Rio de Janeiro... Desnecessário esse tipo de coisa, assim como a polícia sendo violenta para conter protestos. A vida era menos insalubre quando não existiam notícias em tempo real na internet.

Curioso que, mesmo com todo o avanço das tecnologias de comunicação e com o aumento das fontes emissoras, a maioria das pessoas continue desconhecendo muitas coisas... Curioso que a maioria continue com aquela velha opinião formada sobre tudo. Põe todo mundo para fumar um baseado e proíbam o álcool – certeza que haveria queda dos índices de agressividade sociais. Duvida?  

Depois de Tieta, os alemães ergueram a taça e em seguida divulgaram vídeo de agradecimento ao Brasil. Ações que fazem parte de um contínuo. O isolamento não combina com a nova Alemanha – país ou seleção. As marcas tem muito a aprender com eles. Nós, enquanto país ou seleção, também. Um pouco mais de jeitinho alemão vai bem, obrigada. Até a Merkel estava sorridente, gente!

Recebam vaias e aprendam com elas. Caiam. Parem. Respirem. Reflitam. Levantem. Aos pouquinhos. Amadurecendo a cada passo. Reinventando. Reconstruindo. Renascendo. Coincidência que as nações mais bem sucedidas, historicamente, sejam as mais resilientes em cada época? Coincidência que, sempre que apelam demais para o belicismo e para a megalomania, caiam? Algumas aprendem com o fracasso, outras não. Pessoas são assim também.

Individual e coletivamente, sejamos mais alemães. No que eles têm de bom. A perfeição não existe. Nossa fraqueza é a força deles, e vice-versa. Apenas nos esquecemos de nossa força e, ao mesmo tempo, não nos espelhamos na força alheia – ficamos presos a um mito de potência que não passa de uma lenda urbana. O país do futuro que nunca chega. O país do futebol que fede. Chega né... Menos crença e mais pragmatismo, por favor. Em tudo. Sem esquecer qual nossa força.

That’s all folks. Fim dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa. Se eu voltar a escrever sobre o mundial, será em tom nostálgico... Já que a ressaca (eleições) vem aí, conheça o relatório Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil. E já que falávamos de Alemanha e há quem tenha o mau gosto de fazer piadinhas com nazismo... faça um favor ao universo, leia Origens do Totalitarismo***, da Hannah Arendt... e reflita. Passado, presente, futuro. Lá, cá e everywhere. Observe. Algumas coisas mudam, outras permanecem. Interna e externamente.

Escolhas. Conscientes ou não. Escolha.


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A máscara do gigante



"Presta atenção nas pausas, as pequenas, que inesperadamente o destino te concede. Um dia, 'o-que-virá' surgirá assim." (Friedrich Doldinger)



***sobre ‘Origens do Totalitarismo’: Escrita em 1951, esta obra trouxe contribuição fundamental para a compreensão do totalitarismo, tanto no caso soviético, com a luta de classes, como no nazismo, com a luta de raças. Hannah Arendt apresenta um quadro completo da organização totalitária, a sua implantação, a propaganda, o modo como manipula as massas e se apropria do Estado com vistas à dominação total. A sua crítica da razão governamental totalitária ainda hoje é pertinente, numa época onde vigoram regimes com estas características e a democracia liberal não afastou por completo os vestígios de uma ideologia de terror que torna o homem supérfluo. Com a sua lúcida análise, percebemos por qual motivo o campo (de concentração) se encontra no âmago do totalitarismo.
No final, Arendt deixa uma “profecia” desconcertante: “As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem.”



2 de jul de 2014

Balanço da virada (metáforas)

Julho começou com muitas (in)definições.

Empate entre Europa e América nas quartas de final – o novo e o velho mundos com o mesmo número de representantes. Que me desculpem aqueles que, nas oitavas, torceram contra os colonizadores malvados... mas eu não consigo, por exemplo, torcer por time de país governado por ditador ou no qual direitos de minorias (mulheres e LGBTs, mostly) sejam mais desrespeitados do que por aqui.

Aliás, por que eu torceria para um país que não é o meu e com o qual não tenho nenhuma ligação jus solis ou jus sanguinis? Só para torcer contra algum outro? Só para vaiar algum outro? E que papelão vaiar o hino alheio hein... Expresso minha torcida publicamente. Empolgação maior com Alemanha do que com Brasil – por motivos vários, incluindo o futebol. 


Essa Copa já me rendeu muitas risadas causadas por (in)diretas. Uma pessoa vira e diz para outras, do meu lado e em voz alta, que acha ridículo brasileiro torcer para outra seleção ganhar a Copa... mimimi... blábláblá... “não torce pro Brasil, mas torce pra outra...”... mimimi... blábláblá. Tentou me dar uma “lição de patriotismo”, mas... Que deselegante dizer que é ridículo uma cidadã alemã torcer pela seleção alemã né... desculpa minha dupla nacionalidade

Além das quartas de final definidas, julho começou com Barbosão saindo de cena, beijo gay na novela que não assisto, retrocessos para os direitos reprodutivos femininos nos EUA, Aécio definindo vice, Sarkozy sendo detido... e, piada das piadas, secretário-geral da FIFA se dizendo preocupado com a embriaguez nos estádios (ué, mas não foi a FIFA que exigiu que se vendesse cerveja? Agora agüenta...). E cadê as manifestações durante a Copa? Acontecendo, e a galera apanhando – nada de novo no front.

Parêntese: não sou entusiasta nem eleitora do Aécio (e está difícil ser entusiasta e eleitora de quem quer que seja...). Porém, acho engraçado ver a militância do sagrado partido em polvorosa com a escolha de Aloysio Nunes pois, ao contrário do que pensam, esse vice está bem armado contra ataques da militância louca... Aguardem.

Toda festa muito grande vem com uma ressaca depois. Levando-se em consideração que eleições são o próximo capítulo... Todos tomaram seu engov antes da Copa? Há quem me julgue amarga, após essas metáforas do dia proporcionadas pela Copa... Que tal ler a série anterior a essa, as Pequenas Crônicas, antes de conclusões precipitadas?

Para quem, em tempos copísticos, só fala, pensa, acompanha e respira futebol, deixo uma pequena contribuição em forma de links sobre os assuntos que me chamaram atenção nessa virada de mês:

Copa do Mundo

As vezes em que a Copa foi cruel com elas – assédio, violência doméstica, estupro, machismo, exploração sexual... notícias que mostram que as mulheres são as maiores perdedoras do torneio.


Copa está mais bem organizada que Olimpíadas de Londres – o ponto principal, no entanto, não é o desempenho inglês, mas o preconceito contra países do sul.

Secretário-geral da FIFA diz estar preocupado com a embriaguez nas arenas – devido ao aumento da violência, não se descarta suspender venda de cerveja.

Não-Copa do Mundo

(antes de qualquer outra coisa, um assunto importantíssimo que vem sendo ignorado por aqui - e para o qual ainda não achei bons links em português) - recente decisão da Suprema Corte Americana
Could Hobby Lobby Affect Women Around TheWorld? , How Hobby Lobby Ruling Could Limit Access to Birth Control , Between the Lines of the Contraception Decision e Hobby Lobby is just the beginning –  retrocessos a vista para os direitos reprodutivos femininos nos EUA (agradeçam à Suprema Corte #sqn). Essa última década parece marcada por retrocessos nessa área (mundialmente falando) e o curioso é que os EUA são um país no qual tais direitos já estavam razoavelmente bem consolidados.

Espanha, a nova meca da maconha – os clubes de maconha proliferam na Catalunha, País Basco e em Madri como forma de ativismo.

Beijo de #clarina: expectativa x realidade – mais um beijo gay (causando polêmica para os defensores da moral e dos bons costumes), em mais uma novela que não assisto.

Sobre os 20 anos do Plano Real – este ano ainda ouviremos falar muito dos 20 anos do Plano Real, mas por motivos muito mais políticos e eleitoreiros do que por razões cívicas e históricas.

O fundamentalismo não é uma prerrogativa apenas do islamismo – a versão brasileira se materializa na difamação e perseguição sistemática da comunidade LGBT e de outras religiões, sobretudo as de matriz africana (só faltou falar da perseguição/pressão que os fundamentalistas tem feito contra os direitos reprodutivos das mulheres).

Imprensa cubana publica notícia sobre estupro pela primeira vez – a imprensa cubana publicou, pela primeira vez em meio século, uma notícia sobre a prisão de um estuprador (!)




That’s all folks. Chega dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa.



NOTA: No dia 16 de junho, houve o começo involuntário de uma nova série – com número indefinido de textos. Dessa vez, o assunto é futebol (sem, necessariamente, estar falando sobre futebol). São as metáforas do dia proporcionadas pela Copa – acabarão junto com a Copa (ou antes...). Sem pretensão de escrever os melhores textos sobre a Copa - são apenas os meus textos sobre a Copa. O primeiro foi ESSE.