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13 de jul de 2014

A Final, afinal (metáforas)

Antes de tudo, um pequeno aviso, ou lembrete – fica à escolha de quem o receber. Não comemorem o final da Copa e não vociferem a decadência da seleção. Eleições vem aí! A baixaria e a humilhação nem começaram. Corre-se o risco – grande! – de daqui a pouco estarmos com saudades da Copa... Ai que saudades de quando as postagens nas redes sociais eram brigas, discussões, versões, torcidas, distorções, verdades, mentiras... etc... Que saudades de quando era tudo sobre futebol.

É amigos... nas vésperas da Final debates acalorados sobre cotas raciais eram cortados de edições de programas de TV (e com justificativas pífias – ah, vá... no lo creo...)... E essas prisões com a justificativa de prevenir ações que pudessem perturbar a ordem pública no dia da decisão? Sabe quem pode ser preso para prevenir possíveis ações? Todo mundo. Todos. Ou não podemos, todos, amanhã cometermos um crime? O que garante que, amanhã, a mais sã das pessoas não possa surtar e matar alguém? Oi?

A desonestidade, ela não tem limites. Saudades de quando a paixão cega era o futebol. Prevejo eu mesma dizendo isso daqui a alguns meses. Ou semana que vem. Na verdade, os parágrafos antecedentes entregam. A saudade, ela já começou a existir. De onde vem o interesse para que não haja nenhum debate verdadeiro? "Numa terra de fugitivos, aquele que anda em direção contrária parece estar fugindo"... É, T. S. Eliot talvez estivesse certo.


O que interessa é algo mais simples. É TETRAAAAA!!! E a Argentina hein... palmas para eles também. Caíram de pé. Dois times guerreiros até o fim. Festa alemã e bico, cara emburrada – vaias para vocês, Messi, Dilma. Cara de criança mimada que ficou sem doce. Fique feliz pelo coleguinha, ele se esforçou mais do que você. Aprenda com ele e cresça, ao invés de desejar a queda alheia ou ficar de bico. Levante-se.

TETRAAA!!! Já a vi ser campeã duas vezes. Torci muito em ambas. Em 90, a direitista wannabe que festejava a queda dos comunistas e que, curiosamente, se transformaria na esquerdista wannabe manifestante que ia para a rua pedir a queda do capital. Ficou a imagem do Bial ao vivo, apresentando a queda do Muro de Berlim. O festejo, o orgulho. Antes de entender intelectualmente, eu já entendia psicologicamente... Cresci ouvindo meus avós e suas histórias.



Quando entendi, intelectualmente, o que tudo aquilo significava... Nossa! Hoje, festejo e orgulho maiores ainda. E mais genuínos do que no Tri. Daquela época, ficou até hoje o arrepio que o show The Wall me provocou quando assisti... (se há um show no qual eu gostaria de ter estado presencialmente, é esse). O arrepio daquele campeonato, repetido. Dessa vez, eu não vestia a camisa da seleção e não torcia agressivamente. Tranqüilidade. A vitória era certa...

Coração tranqüilo. Agressões não ganham o jogo. Tão pouco só o trabalho bem feito. Fica claro que, em momentos de definições, quem ganha o jogo é o emocional. Ele, que não é nem só coração e nem só cérebro. Ele, que envolve racionalidade e resiliência absurdas. E, enquanto escrevo esse texto, brasileiros provocam argentinos e várias brigas entre rivais são registradas no Rio de Janeiro... Desnecessário esse tipo de coisa, assim como a polícia sendo violenta para conter protestos. A vida era menos insalubre quando não existiam notícias em tempo real na internet.

Curioso que, mesmo com todo o avanço das tecnologias de comunicação e com o aumento das fontes emissoras, a maioria das pessoas continue desconhecendo muitas coisas... Curioso que a maioria continue com aquela velha opinião formada sobre tudo. Põe todo mundo para fumar um baseado e proíbam o álcool – certeza que haveria queda dos índices de agressividade sociais. Duvida?  

Depois de Tieta, os alemães ergueram a taça e em seguida divulgaram vídeo de agradecimento ao Brasil. Ações que fazem parte de um contínuo. O isolamento não combina com a nova Alemanha – país ou seleção. As marcas tem muito a aprender com eles. Nós, enquanto país ou seleção, também. Um pouco mais de jeitinho alemão vai bem, obrigada. Até a Merkel estava sorridente, gente!

Recebam vaias e aprendam com elas. Caiam. Parem. Respirem. Reflitam. Levantem. Aos pouquinhos. Amadurecendo a cada passo. Reinventando. Reconstruindo. Renascendo. Coincidência que as nações mais bem sucedidas, historicamente, sejam as mais resilientes em cada época? Coincidência que, sempre que apelam demais para o belicismo e para a megalomania, caiam? Algumas aprendem com o fracasso, outras não. Pessoas são assim também.

Individual e coletivamente, sejamos mais alemães. No que eles têm de bom. A perfeição não existe. Nossa fraqueza é a força deles, e vice-versa. Apenas nos esquecemos de nossa força e, ao mesmo tempo, não nos espelhamos na força alheia – ficamos presos a um mito de potência que não passa de uma lenda urbana. O país do futuro que nunca chega. O país do futebol que fede. Chega né... Menos crença e mais pragmatismo, por favor. Em tudo. Sem esquecer qual nossa força.

That’s all folks. Fim dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa. Se eu voltar a escrever sobre o mundial, será em tom nostálgico... Já que a ressaca (eleições) vem aí, conheça o relatório Megaeventos e Violações de Direitos Humanos no Brasil. E já que falávamos de Alemanha e há quem tenha o mau gosto de fazer piadinhas com nazismo... faça um favor ao universo, leia Origens do Totalitarismo***, da Hannah Arendt... e reflita. Passado, presente, futuro. Lá, cá e everywhere. Observe. Algumas coisas mudam, outras permanecem. Interna e externamente.

Escolhas. Conscientes ou não. Escolha.


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"Presta atenção nas pausas, as pequenas, que inesperadamente o destino te concede. Um dia, 'o-que-virá' surgirá assim." (Friedrich Doldinger)



***sobre ‘Origens do Totalitarismo’: Escrita em 1951, esta obra trouxe contribuição fundamental para a compreensão do totalitarismo, tanto no caso soviético, com a luta de classes, como no nazismo, com a luta de raças. Hannah Arendt apresenta um quadro completo da organização totalitária, a sua implantação, a propaganda, o modo como manipula as massas e se apropria do Estado com vistas à dominação total. A sua crítica da razão governamental totalitária ainda hoje é pertinente, numa época onde vigoram regimes com estas características e a democracia liberal não afastou por completo os vestígios de uma ideologia de terror que torna o homem supérfluo. Com a sua lúcida análise, percebemos por qual motivo o campo (de concentração) se encontra no âmago do totalitarismo.
No final, Arendt deixa uma “profecia” desconcertante: “As soluções totalitárias podem muito bem sobreviver à queda dos regimes totalitários sob a forma de forte tentação que surgirá sempre que pareça impossível aliviar a miséria política, social ou econômica de um modo digno do homem.”