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2 de jul de 2014

Balanço da virada (metáforas)

Julho começou com muitas (in)definições.

Empate entre Europa e América nas quartas de final – o novo e o velho mundos com o mesmo número de representantes. Que me desculpem aqueles que, nas oitavas, torceram contra os colonizadores malvados... mas eu não consigo, por exemplo, torcer por time de país governado por ditador ou no qual direitos de minorias (mulheres e LGBTs, mostly) sejam mais desrespeitados do que por aqui.

Aliás, por que eu torceria para um país que não é o meu e com o qual não tenho nenhuma ligação jus solis ou jus sanguinis? Só para torcer contra algum outro? Só para vaiar algum outro? E que papelão vaiar o hino alheio hein... Expresso minha torcida publicamente. Empolgação maior com Alemanha do que com Brasil – por motivos vários, incluindo o futebol. 


Essa Copa já me rendeu muitas risadas causadas por (in)diretas. Uma pessoa vira e diz para outras, do meu lado e em voz alta, que acha ridículo brasileiro torcer para outra seleção ganhar a Copa... mimimi... blábláblá... “não torce pro Brasil, mas torce pra outra...”... mimimi... blábláblá. Tentou me dar uma “lição de patriotismo”, mas... Que deselegante dizer que é ridículo uma cidadã alemã torcer pela seleção alemã né... desculpa minha dupla nacionalidade

Além das quartas de final definidas, julho começou com Barbosão saindo de cena, beijo gay na novela que não assisto, retrocessos para os direitos reprodutivos femininos nos EUA, Aécio definindo vice, Sarkozy sendo detido... e, piada das piadas, secretário-geral da FIFA se dizendo preocupado com a embriaguez nos estádios (ué, mas não foi a FIFA que exigiu que se vendesse cerveja? Agora agüenta...). E cadê as manifestações durante a Copa? Acontecendo, e a galera apanhando – nada de novo no front.

Parêntese: não sou entusiasta nem eleitora do Aécio (e está difícil ser entusiasta e eleitora de quem quer que seja...). Porém, acho engraçado ver a militância do sagrado partido em polvorosa com a escolha de Aloysio Nunes pois, ao contrário do que pensam, esse vice está bem armado contra ataques da militância louca... Aguardem.

Toda festa muito grande vem com uma ressaca depois. Levando-se em consideração que eleições são o próximo capítulo... Todos tomaram seu engov antes da Copa? Há quem me julgue amarga, após essas metáforas do dia proporcionadas pela Copa... Que tal ler a série anterior a essa, as Pequenas Crônicas, antes de conclusões precipitadas?

Para quem, em tempos copísticos, só fala, pensa, acompanha e respira futebol, deixo uma pequena contribuição em forma de links sobre os assuntos que me chamaram atenção nessa virada de mês:

Copa do Mundo

As vezes em que a Copa foi cruel com elas – assédio, violência doméstica, estupro, machismo, exploração sexual... notícias que mostram que as mulheres são as maiores perdedoras do torneio.


Copa está mais bem organizada que Olimpíadas de Londres – o ponto principal, no entanto, não é o desempenho inglês, mas o preconceito contra países do sul.

Secretário-geral da FIFA diz estar preocupado com a embriaguez nas arenas – devido ao aumento da violência, não se descarta suspender venda de cerveja.

Não-Copa do Mundo

(antes de qualquer outra coisa, um assunto importantíssimo que vem sendo ignorado por aqui - e para o qual ainda não achei bons links em português) - recente decisão da Suprema Corte Americana
Could Hobby Lobby Affect Women Around TheWorld? , How Hobby Lobby Ruling Could Limit Access to Birth Control , Between the Lines of the Contraception Decision e Hobby Lobby is just the beginning –  retrocessos a vista para os direitos reprodutivos femininos nos EUA (agradeçam à Suprema Corte #sqn). Essa última década parece marcada por retrocessos nessa área (mundialmente falando) e o curioso é que os EUA são um país no qual tais direitos já estavam razoavelmente bem consolidados.

Espanha, a nova meca da maconha – os clubes de maconha proliferam na Catalunha, País Basco e em Madri como forma de ativismo.

Beijo de #clarina: expectativa x realidade – mais um beijo gay (causando polêmica para os defensores da moral e dos bons costumes), em mais uma novela que não assisto.

Sobre os 20 anos do Plano Real – este ano ainda ouviremos falar muito dos 20 anos do Plano Real, mas por motivos muito mais políticos e eleitoreiros do que por razões cívicas e históricas.

O fundamentalismo não é uma prerrogativa apenas do islamismo – a versão brasileira se materializa na difamação e perseguição sistemática da comunidade LGBT e de outras religiões, sobretudo as de matriz africana (só faltou falar da perseguição/pressão que os fundamentalistas tem feito contra os direitos reprodutivos das mulheres).

Imprensa cubana publica notícia sobre estupro pela primeira vez – a imprensa cubana publicou, pela primeira vez em meio século, uma notícia sobre a prisão de um estuprador (!)




That’s all folks. Chega dessas metáforas do dia proporcionadas pela Copa.



NOTA: No dia 16 de junho, houve o começo involuntário de uma nova série – com número indefinido de textos. Dessa vez, o assunto é futebol (sem, necessariamente, estar falando sobre futebol). São as metáforas do dia proporcionadas pela Copa – acabarão junto com a Copa (ou antes...). Sem pretensão de escrever os melhores textos sobre a Copa - são apenas os meus textos sobre a Copa. O primeiro foi ESSE.