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31 de out de 2014

a banalidade do mal

Alexander Soljenítsin (1918-2008), escritor russo, autor do monumental “Arquipélago Gulag”, escreveu que os piores vilões de Shakespeare já não metiam medo aos homens do século 20. Os relatos de Soljenítsin, que sofreu na pele os crimes do regime soviético, demonstram o perigo e a tragédia do momento em que a ideologia substitui a consciência.

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Na era moderna, em especial no século passado, a política adquiriu cores de uma religião – ou de uma fé. Os modernos movimentos ideológicos de massa substituíram e aniquilaram a moral. Em nome de um ideal de sociedade, tudo torna-se possível: matar, roubar, mentir, corromper. Nada é pessoal. É tudo em nome do partido, da raça, da nação. Quando estamos munidos de uma ideologia, é possível eliminar da agenda moral a consciência do mal como parte de nós mesmos.

Václav Havel (1936-2011), escritor e político checo, ressaltou que a ideologia é uma forma ilusória de se relacionar com o mundo. Ela oferece os seres humanos a ilusão de uma identidade, de dignidade, de pertencimento e torna mais fácil a aceitação. Ela permite que as pessoas enganem a sua consciência e que a ocultem de si mesmos. É um véu, atrás do qual os seres humanos podem esconder a sua própria existência caída, sua banalização e sua adaptação ao coletivo. É uma desculpa que todos podem usar – desde o verdureiro, que esconde seu medo de perder o emprego por trás de um alegado interesse na unificação dos trabalhadores do mundo, até o mais alto funcionário público, cujo interesse em permanecer no poder pode ser camuflado em frases sobre o serviço para a classe trabalhadora e para a sociedade. A principal função da ideologia é, portanto, proporcionar às pessoas a ilusão de que a sociedade está em harmonia com a ordem humana e em rumo linear à salvação.

Considerações semelhantes foram feitas por Hannah Arendt (1906-1975), filósofa política alemã de origem judaica. Em tempo: quem puder, assista ao filme de Margarethe von Trotta. Ela narra especificamente os anos da vida de Arendt em que ela assistiu ao processo de julgamento de Eichmann e relatou sua experiência para os leitores da revista “The New Yorker” – que depois se transformou no livro “Eichmann em Jerusalém – um Relato sobre a Banalidade do Mal” (Companhia das Letras).

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Quando foi convidada para acompanhar o julgamento, Arendt já era uma filósofa renomada, especialmente pelo livro “Origens do Totalitarismo“, de 1951. Nessa obra, ela realçou a singularidade do totalitarismo como nova forma de governo baseada na organização burocrática de massas e apoiada no emprego do terror e da ideologia. Hannah Arendt coloca o nazismo e o stalinismo diante do mesmo tribunal – uma novidade para a época – e ressalta que as origens dos totalitarismos do século 20 estavam nas ideias, nas convicções e nos ideais, tanto das elites como dos povos.

No entanto, após assistir ao processo de Eichmann, Arendt teve certeza de que suas explicações anteriores não bastavam para esclarecer a transformação de um cidadão comum em um assassino genocida. O totalitarismo tinha sido possível não somente graças a uma tropa – mas graças a personagens quaisquer e banais, facilmente dispostos a abdicar sua faculdade de pensar em prol da fidelidade ao grupo ou do projeto político que tanto defendiam.

O que mais impressionou nos relatos de Arendt foi a caracterização de Eichmann. O tenente-coronel nazista não foi descrito como um monstro ou um exaltado. Se assim fosse, sua loucura poderia explicar o horror de seus atos e o manteria afastado das pessoas comuns, diferente de nós. Mas não. Era um banal – um primo, parente, amigo, acolhedor e colega. Era um cidadão comum – disposto a praticar atos monstruosos em nome da sua ideologia. O monstro cede lugar a um funcionário medíocre, um arrivista incapaz de refletir sobre seus atos ou de fugir aos clichês burocráticos.

Nada disso serve de desculpas, ressalto. A culpa original de Eichmann é usar a fidelidade ao grupo como justificativa para suprimir a capacidade de pensar. Graças a isso ele se torna capaz de agir como se não existissem considerações morais. Obedecia a ordens, sem considerar as implicações delas. Ao tornar-se instrumento do funcionamento coletivo, ele abriu mão de sua individualidade e do diálogo com sua consciência.

Como ressaltou Contardo Calligaris, psicanalista italiano radicado no Brasil, há algo na dinâmica de nossa subjetividade que faz com que parar de pensar seja uma tentação constante, como se qualquer desculpa (ideológica, por exemplo) fosse boa para fugir da solidão, que é a condição do diálogo moral de cada um com sua consciência. Calligaris afirma que “o coletivo (a nação, o partido, o sindicato, a torcida, a gangue, o grupo adolescente de amigos, a própria família) não oferece apenas ideologias e desculpas: ele fornece uma função para cada um de seus membros. Com isso, não preciso pensar para decidir minha vida – preciso apenas preencher minha função. É bom o que é funcional ao grupo – ruim, o que não é”.

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A história do século 20 ensinou que não há nada mais opressor do que tornar a humanidade em um projeto, que sempre será imposto de cima para baixo. A necessidade de criar o novo homem e de promover o bem comum está nas raízes de todos os totalitarismos do século passado. Criar nova sociedade por meio de um projeto político sempre exigirá que se esvaziem dos indivíduos todas as suas verdades e necessidades “egoístas” em nome da coletividade, que será representada por um partido ou por um condutor das massas – em certos casos, por ambos.

É apenas o foro íntimo que coloca os freios à banalidade do mal. Qualquer ofuscamento do indivíduo representa a morte da moral e da consciência. Pensem nisso antes de agitar uma bandeira, aderir a movimentos de massa, vestir a camisa de um partido ou de um clube. Deixem de usar a primeira pessoa do plural e comecem a escutar a primeira pessoa do singular: o solitário e insubornável “eu”.


*o texto acima não é de minha autoria e pode ser lido na íntegra AQUI



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27 de out de 2014

o saldo das eleições: luto

É tanto absurdo absurdante que tive o desprazer de ler nessa terra de ninguém – conhecida também como internet – ou presenciar ao vivo e em cores... que só me resta o luto. #R.I.P.racionalidade #R.I.P.lucidez #R.I.P.respeito Uma pena que respeito esteja em desuso – e que hipocrisia esteja tão ‘na moda’ (e de todos os lados!). Defendem a democracia pregando preconceito, ódio e pensamento único? Really?

Crianças mimadas que não sabem perder... Crianças mimadas que não sabem ganhar... Parabéns! Continuem canonizando candidatos e partidos com essa paixão cega inexplicável que cala qualquer razão. Iludidos, continuem preocupados com o destino do Lobão, o nariz do Aécio, a gagueira da Dilma... Talvez a fantasia transforme magicamente o que move a máquina e o Brasil se torne um conto de fadas. Ou o cérebro dessas crianças está em greve?

Continuem empobrecendo qualquer debate sério com rótulos. Coxinhas. Petralhas. Playboys. Comunistas. Infectados. Gayzistas. Reacionários. Continuem destilando preconceitos mesquinhos contra nordestinos ou, quem sabe, contra paulistas. Burros, todos eles. Continuem repetindo ad nauseum, como crianças birrentas, coisas como “chupa” ou “chora” ou pedindo a separação do país daqueles “nordestinos burros e miseráveis”. Isso lhes traz algum regozijo perverso?

Sabia que esses rótulos contribuem para a desumanização do outro? Dessa forma, não vemos o outro como um ser humano, com direitos, sonhos, planos, medos e esperança... Ah, esses jogos de palavras usados para denegrir e diminuir quem pensa diferente! O eleitorado se perdeu em meio a ofensas e discussões/argumentos sem sentido. Os próprios candidatos, alguns mais do que outros, esqueceram que o debate é feito de ideias e não de acusações pessoais...

Eleitores de Dilma não necessariamente são comunistas comedores de criancinhas e eleitores de Aécio não necessariamente são elitistas conservadores neoliberais. Muitos, em ambos os casos, são. Outros apenas tem uma visão diferente para alcançar o mesmo fim. Outros, ainda, votam coagidos por medo de perder o que conquistaram – seja um cargo, uma bolsa ou o lucro de sua empresa. Todos, porém, tem o mesmo direito de escolher o candidato que quiserem – e essa escolha, por mais que nos pareça péssima ou por mais que não seja de fato uma escolha, sim uma coação, não nos dá o direito de agirmos como seres primitivos, odiosos, indecentes e estúpidos.

Pessoalmente, acho mais do que equivocada a reeleição de Dilma. Gostaria de estar errada, mas prevejo tempos difíceis para o Brasil – econômica, social e institucionalmente. Gostaria de estar errada, mas prevejo que não teremos avanços em relação aos direitos humanos e das minorias. Gostaria de estar errada, mas prevejo crises graves nos próximos anos – política, econômica, institucional e social. Gostaria de estar errada, mas quem vai pagar a conta disso tudo é essa mesma população que reelegeu Dilma, com ênfase nos mais pobres e humildes.

"There's no such a thing as a free lunch". O projeto social do PT tem uma falha grave: não é economicamente sustentável. Alguém ou algo tem que pagar essa conta e, seja quem for, é um agente econômico que, como tal, depende da estabilidade econômica. Que me desculpem os crédulos, mas o PT já demonstrou ser incompetente nessa área (a economia)... Como defensora das causas sociais e por não acreditar que Dilma possa ser diferente de Dilma, votei no PSDB – e exatamente para salvar as condições econômicas que possibilitariam dar continuidade e sustentação aos projetos sociais iniciados na Era FHC e melhorados na Era PT.

Gostaria de estar errada em todas as minhas previsões – mas sinto que, no futuro, muita gente se arrependerá do ovo de serpente que ajudou a chocar... Espero estar errada. Até lá, que as pessoas possam comemorar ou lamentar sem serem babacas. Sabiam que dá para argumentar e defender seu lado sem ser babaca? Que dá para discordar sem babaquice e xingamentos/ofensas gratuitos aos outros? Que dá para ficar indignado ou muito feliz sem a necessidade de baixar o nível e misturar preconceitos mesquinhos à indignação ou à felicidade? #R.I.P.racionalidade #R.I.P.lucidez #R.I.P.respeito Uma pena que respeito esteja em desuso – e que hipocrisia esteja tão ‘na moda’ (e de todos os lados!).



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Democracia birrenta








21 de out de 2014

2º turno entre sujos e mal lavados

Deixemos de lado competências municipais, estaduais e federais – afinal, isso não é uma aula de direito constitucional... Também deixemos de lado competências do legislativo, do judiciário e do executivo pelo mesmo motivo. Na dúvida, tem um pdf da nossa carta magna AQUI e o Google existe – use-o!!! (e se duvidar de qualquer coisa que está aqui exposta, use o tal do Google e pesquise... juro que não dói)


A imagem acima, por enquanto, é a única que vi compartilhada em redes sociais que se aproxima do verossímil. É tanta bizarrice, tanta coisa retirada de contexto histórico nacional e internacional... tanto #reginaduartefeelings... Que a vontade se divide entre correr para as montanhas e recomendar cirurgias corretivas oftálmicas. Essa queda de QI – generalizada! – que tem acometido as pessoas nessas eleições é preocupante...  

Está indeciso quanto ao seu voto no próximo dia 26? Compare o sujo com o mal lavado e não leve a sério o que nenhum militante de nenhum dos dois lados diz. Afinal, para o pessoal que perdeu os óculos seu escolhido é o retrato da perfeição e a solução para todos os problemas, enquanto o outro é o demo. Ademais, estude a constituição e entenda: sozinho, o presidente não pode resolver ou piorar coisa alguma... Esse eterno país do futuro por acaso é uma ditadura? Existem as tais divisões de competências sabe...

Mais uma palavrinha para os indecisos (e para os adeptos do discurso do MEDO): Bolsa Família. NENHUM, repito, NENHUM!!!, presidente é louco ou burro ou idiota de acabar com esse programa no curto e no médio prazos. Políticos não são bonzinhos e, sejamos honestos, também não estão preocupados com a situação do povo (caso de fato se preocupassem, isso aqui não seria mais esse país pobre de gente deseducada né...). Políticos se preocupam com eles mesmos e já sabem que o Bolsa Família e outros programas sociais lhes dão apoio. Logo, sejamos realistas: NENHUM seria retardado de ser eleito e acabar com esses programas – ao contrário, a tendência é mantê-los e quiçá ampliá-los e/ou melhorá-los, já pensando nas eleições de 2018.


Aécio é o candidato do capital? Ok. E Dilma favoreceu deliberada e efetivamente o capital. Dilma representa a esperança de reforma política? Really? Mas o PT aprofundou alianças com os setores retrógrados do sistema político brasileiro em defesa da governabilidade e não realizou nenhum movimento em direção à reforma política... nem mesmo quando, em junho de 2013, a conjuntura social favorecia o rompimento com esses setores e a reforma política. Na época, o PT e o governo Dilma preferiram estreitar as alianças espúrias e apoiar a repressão às jornadas de junho. Se hoje Aécio faz alianças com membros de setores retrógrados visando ser eleito, o PT faz isso há 12 anos visando à governabilidade. 

Dilma defende como uma importante conquista social e econômica o aumento do consumo... Mas esquece deliberadamente (ou ignora) que não foi empreendida a reforma tributária, que não foi criado o Imposto sobre Grandes Fortunas, que não foi auditada a dívida pública, que a parcela rica da população permanece rica e a parcela mais rica permanece riquíssima, e que vivemos em um momento (planetário!) no qual não devemos expandir o consumo, mas sim criar estratégias de justa distribuição da riqueza e promover o decréscimo e a redução do consumo.

No governo Dilma o ensino superior continuou se expandindo? Ok... só que a maioria das instituições de ensino superior, que são privadas, oferece uma educação de péssima qualidade, cujo fim é a formação de mão-de-obra semi-qualificada e barata para o mercado de trabalho e nosso nível de analfabetismo funcional entre portadores de diploma de curso superior é altíssimo! Sem falar que estamos sempre entre os últimos em testes internacionais que medem a qualidade da educação dos níveis fundamental e médio...

A exploração do pré-sal é garantia de um futuro melhor para o Brasil? Hahaha... faz-me rir! É imprescindível e urgente adotarmos uma nova matriz energética, além de desenvolvermos e investirmos em fontes de energia renováveis e não-poluentes (hello mudanças climáticas!). E as políticas energético-desenvolvimentistas do governo Dilma estão aprofundando a devastação sócio-ecológica e desrespeitando os direitos das comunidades tradicionais. Outra coisa: o novo Código Florestal, retrocesso para o meio ambiente, por acaso foi aprovado no governo do PSDB?

No governo Dilma a área cultural recebeu investimentos em toda a cadeia produtiva? Risos né. Dilma nomeou, para o Ministério da Cultura, Ana de Hollanda, que promoveu um profundo retrocesso no setor, em relação às conquistas das gestões de Gilberto Gil e de Juca Ferreira. Dilma representa os interesses e os direitos da população LGBT? Essa população passou os últimos 4 anos desamparada pelo governo Dilma, durante o qual foram revigorados os laços com o conservadorismo religioso no Congresso Nacional, políticas públicas LGBT’s existentes ou planejadas foram extintas e novas políticas públicas efetivas não foram criadas. No caso de políticas públicas para os direitos das mulheres, houve mais retrocesso do que avanço e os poucos avanços devem-se à atuação da militância, não ao governo.

Numa área que me interessa, a Política Externa, Dilma efetivamente fez o que de bom? Cri...cri...cri... Barão do Rio Branco se revira no túmulo, só digo isso. Uma área na qual existia uma política de Estado e não de governo... na qual a excelência na formação dos quadros dava o tom... Descarrilhamento e desdirecionamento geral e irrestrito! Só falta mesmo ter indicação política para fazer parte dos formuladores de política externa, em vez de estudar muito para isso... Oh wait, já querem fazer isso ...

Aécio será melhor do que Dilma nisso tudo? Não sei e há sérias dúvidas... Mas não posso falar nada sobre ele como presidente. Não posso compará-lo a FHC, como não posso comparar Dilma a Lula. É necessário que haja contextualização histórica-econômica-social, nos níveis nacional e internacional, para tecer quaisquer comparações. O Brasil (e o mundo!) de 2014 não pode ser comparado, levianamente e sem contextualização, com o Brasil dos anos 90 ou do início desse século. Posso comparar Dilma com Dilma, apenas. E se eu acreditasse que Dilma será diferente de Dilma, talvez considerasse votar nela... mas deixei de acreditar em Papai Noel há tempos. Que me desculpem os cegos ou usuários de alucinógenos pesados, mas esse país imaginário do pleno emprego, da inflação sob controle e sem pobreza, no qual a saúde, a educação, a mobilidade, a segurança, a geração de energia e a infraestrutura vão bem... olha, esse não é o mesmo país no qual vivo. 

A verdade é que ambos, Dilma e Aécio, estão de mãos dadas com o capital, com setores retrógrados, com fundamentalistas religiosos, com a corrupção. Ambos mentem – sobre si e sobre o outro. Ambos exageram – sobre si e sobre o outro. Ambos insistem em comparações que não podem ser feitas sem que haja uma contextualização histórica-econômica-social, que leve em consideração o nacional e o internacional. Ambos só chegaram onde chegaram por indicações – de amiguinhos e/ou de familiares. Ambos tem telhado de vidro cheio de rachaduras. Ambos terão uma situação difícil a enfrentar para colocar o Brasil nos eixos e um congresso que, no mínimo, dará trabalho.

Porém, entre continuar com Dilma e tentar com outro, fico com o outro – e, exceto Levy doido Fidelix e pastores de qualquer raça, eu ficaria com qualquer outro. No caso, é Aécio. Poderia ser Marina, Luciana, Eduardo... Continuar com o relacionamento atual, que vai mal, com desrespeito, falta de confiança, abusos e agressões não né... Se o próximo pode ser pior, igual ou melhor, por que continuar com o que está ruim? Se fosse um namoro/noivado/casamento, seria mais racional e pragmático continuar com quem é bacana no discurso e nas aparências, mas só dá desgosto... ou tentar com quem tem grandes probabilidades de dar desgosto, mas pode acabar surpreendendo e sendo bacana?

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NOTAS:
- não sou militante de nenhum partido, não votei em Aécio no 1º turno e não falei da presidência de Aécio por um motivo óbvio: ele nunca foi presidente e, portanto, não posso falar dele como chefe do executivo federal. Não falo de hipóteses do que poderia ser... só do que foi ou é.
- voto em Aécio, agora, pelo mesmo motivo que me levou a votar em Lula em 2002: quem está aí já deu o que tinha que dar, então troquemos (preferiria, entretanto, testar e dar chance a um novo partido... mas parece que a maioria não...).
- para refletir: por muito menos nosso coleguinha Collor sofreu impeachment...
- algumas partes desse texto são de autoria de Fabiano Camilo e foram retiradas DAQUI.


12 de out de 2014

les enfants qui sont morts

A gente sabe que a criança morreu quando não acredita mais. Cedo ou tarde, cinismo e descrença batem à porta, entram sem pedir licença. C’est la vie. Nada se pode fazer quanto a isso. O mundo traz o óbito, as pessoas apenas enterram o cadáver. Aos pouquinhos, sem que se perceba, crianças morrem diariamente. Petrificam, talvez.

O tempo, bom ou ruim, passa. Esgota-se. Se fim ou começo estão próximos, ninguém sabe. Às vezes, o telefone toca. Às vezes, os toques provocam leve taquicardia, ou falta de ar, ou quem sabe um suspiro alimentado pela decepção. Apenas uma vela acesa, que vai encolhendo. A parafina, ela termina. O pavio vai junto. Apaga-se a chama.

Saudade. Do quê? Aquela presença na ausência. O que diria se pudesse? Um sorriso, um abraço forte, o silêncio. A fala seria esta. Mesmo? Talvez uma lágrima completasse o discurso. Diálogos que seguem silenciosos. (In)felizmente. Não se sabe ainda a causa mortis, enquanto algo ainda sobrevive, intacto.

Vem aqui, dialoguemos em silêncio. Sem parênteses. 

moi... hier?... aujourd'hui?... demain?...

Só uma necessidade. “Me desculpe, errei”. Só. Para aquele sorriso, aquele abraço forte, aquele silêncio. O da presença. “Está tudo bem”. Prometa que não fará mais isso e estamos conversados. Não é assim o perdão? A presença é a confirmação dele. Um beijo, um afago e não se fala mais nisso. Não era assim quando éramos pequeninos seres crentes e dialogávamos em silêncio com nossos pais?
 
A gente sabe que a criança continua viva quando ainda há crença. Sorrisos sinceros e bobos, sem rancor. C’est la vie. Nada se pode fazer quanto a isso. O mundo desaba, as pessoas apenas retiram o cadáver dos escombros. Aos pouquinhos, sem que se perceba, crianças ressuscitam diariamente. Brincam, talvez.

O eterno je ne sais quoi do futuro. Incerto. Inocente e pueril. Vivo no brilho dos olhos e no sorriso. Infantil crença (burra?). A realidade pode solapar sonhos? Ou recomece sempre e molde a realidade?




>obra de ficção baseada em fatos reais, domésticos ou não, portadora de figuras de linguagem<