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12 de out de 2014

les enfants qui sont morts

A gente sabe que a criança morreu quando não acredita mais. Cedo ou tarde, cinismo e descrença batem à porta, entram sem pedir licença. C’est la vie. Nada se pode fazer quanto a isso. O mundo traz o óbito, as pessoas apenas enterram o cadáver. Aos pouquinhos, sem que se perceba, crianças morrem diariamente. Petrificam, talvez.

O tempo, bom ou ruim, passa. Esgota-se. Se fim ou começo estão próximos, ninguém sabe. Às vezes, o telefone toca. Às vezes, os toques provocam leve taquicardia, ou falta de ar, ou quem sabe um suspiro alimentado pela decepção. Apenas uma vela acesa, que vai encolhendo. A parafina, ela termina. O pavio vai junto. Apaga-se a chama.

Saudade. Do quê? Aquela presença na ausência. O que diria se pudesse? Um sorriso, um abraço forte, o silêncio. A fala seria esta. Mesmo? Talvez uma lágrima completasse o discurso. Diálogos que seguem silenciosos. (In)felizmente. Não se sabe ainda a causa mortis, enquanto algo ainda sobrevive, intacto.

Vem aqui, dialoguemos em silêncio. Sem parênteses. 

moi... hier?... aujourd'hui?... demain?...

Só uma necessidade. “Me desculpe, errei”. Só. Para aquele sorriso, aquele abraço forte, aquele silêncio. O da presença. “Está tudo bem”. Prometa que não fará mais isso e estamos conversados. Não é assim o perdão? A presença é a confirmação dele. Um beijo, um afago e não se fala mais nisso. Não era assim quando éramos pequeninos seres crentes e dialogávamos em silêncio com nossos pais?
 
A gente sabe que a criança continua viva quando ainda há crença. Sorrisos sinceros e bobos, sem rancor. C’est la vie. Nada se pode fazer quanto a isso. O mundo desaba, as pessoas apenas retiram o cadáver dos escombros. Aos pouquinhos, sem que se perceba, crianças ressuscitam diariamente. Brincam, talvez.

O eterno je ne sais quoi do futuro. Incerto. Inocente e pueril. Vivo no brilho dos olhos e no sorriso. Infantil crença (burra?). A realidade pode solapar sonhos? Ou recomece sempre e molde a realidade?




>obra de ficção baseada em fatos reais, domésticos ou não, portadora de figuras de linguagem<